sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Obscuridade Humana

 

            Era de uma estranheza líquida, de um semblante amargo e translúcido como a água imensa de um oceano que repele qualquer corpo intruso, qualquer alma vaga, qualquer segmento sem nexo, qualquer destino sem introito. A inexistência é fenômeno da reclusão, do não sentido, do pouco confessado, de uma geração com seu norte embaçado, é a inconsistência de um leito, é a vida simplesmente ancorada e camuflada em sua taxonomia, em seu cerne congelado. Na inércia das coisas e dos sentimentos, a inexistência é um refúgio.

            Ouço vozes abafadas nas correntes da dor, vejo sentimentos colidirem com as águas agitadas e insensíveis do corpo humano, este feito de marés demolidoras e imagens perturbadoras de um sofisma inquietante como se fosse uma navalha escondida entre a consciência e a imatura ilusão do pensamento. Avistei ainda, na intempestiva noite, fora os clarões sarcásticos da alma, os rabiscos contínuos, eufóricos, aviltantes e aterrorizadores da minha paulatina viagem. Há azáfama entre os manuscritos sustentados em suas próprias indumentárias amolgadas.

            O sonho havia me tresloucado. Percebi que já eram seis e quinze da manhã pelo cheiro da cidade a pôr-se de pé nas calçadas ainda húmidas com o orvalho noturno, do cheiro inconfundível das rosas campestres adentrando as entranhas da jovem jornada recomeçando seu ciclo bagunçado e mal arejado. Agarrei-me aos óculos, que se quedaram em cima do pequeno criado mudo, pertencente ao cavaleiro medieval Rodrigo Diaz de Vivar, o grande campeador do Alferes de Navarra, em um período em que a emergente Hispânia encontrava-se dividida entre reinos cristãos e mouros, adquirido por meu avô, em meados do ano de 1989, quando tal objeto histórico procedia-se em um leilão. Apalpei o jarro de flores e avistei pela janela recém-aberta uma curiosidade virgem em seu âmago: um pressentimento afastado dos grandes monólitos de concretos rudimentares que se entrelaçavam pelas linhas curvas e inexprimíveis de minhas emoções e das ruas cegas e acostumadas com o tráfego urbano calamitoso e cada vez mais moderno. Mas, sufoquei-a com simples golpes de incredulidade e desconfiança, pois, amiúde, tornei-me autor desvairado e sem semblante, reflexo e contaminado pela humanidade (a face obscura de mim mesmo). Ademais, as vitrines já vendiam suas roupas estrangeiras, ditadas pela moda europeia. Até o porteiro já houvera há muito se globalizado, tornava-se mais formal com o apressar do tempo. Não se embriagava nas noites em que a lua desabrochava nos cais, tampouco escrevia em seu livro de poemas. Aderiu-se ao símbolo repugnante, finalmente. Outrossim, percebi, em seu olhar mal dormido, que envelhecera uns quinze anos, tomava remédios periodicamente, não mais amava as noites claras de relento, dormia cedo. Tão logo, esquecia-se do tempo inédito. Deixava-se dominar por uma ternura belicosa: distúrbios de uma personalidade inerte e opaca. Nesse ínterim, eclodia-se nas ruínas de sua existência um reino alienado, sustentado por intrujices escorchadas.

            A humanidade é uma prole caótica de Atta Cephalotes destruindo a própria essência, atrás de cada olhar mora os tentáculos de uma maldade inata. É um ser castigado pelo ventre de sua progenitora, esquecido nas áridas e inférteis sensações, repelido pelo estômago de sua própria concupiscência, cuspido das cinzas de sua espécie, tem na alma do abutre seu refúgio, espólio de turva estirpe e ascendente de uma geração inclinada a posturas amolgadas.

            A vida é como um sopro frio e torturador da imagem de sua sombra. E o perigo está em a sombra ser iconoclasta, inclinação para a postura alienada da humanidade, onde sua imagem é opaca, onde o frio não sopra, onde nada desabrocha, onde a vida é seca. Assim, descobri-me inerte tracejando em vão, refém e amordaçado pela transfiguração. Sinto-me exaurido! Na verdade, não me sinto. Não compreendo a ideologia de minha prole. Minha mente foi saqueada e meu espírito já perdeu a essência. Estamos devorando, como que famintos pela destruição, nossa ecumênica virtude e aos poucos nos transformando em uma espécie niilista, ignorante e desprezível. Sinto-me “um tupi tangendo um alaúde”.

            Sobre a mesa reluzia uma fotografia envelhecida de um senhor sorridente contendo seu monóculo sobre o arcabouço, de uma beleza jovial, de um ânimo pouco explorado, calcado em um empirismo atônito e enigmático, cada ângulo seu tentava expressar com timidez um relato tardio internado em sua feição, talvez, mostrasse com apreensão as amarras abrasivas que ceifavam sua manumissão, reduzindo-o a escravo de um quinhão, de uma visão maçante, de um desprezo impensado. Há quanto tempo tal retrato permanecera tomado pelo descaso, largado à estante empoeirado? Por que tão somente agora sua presença se faz tão perceptível e curiosa? A luz compenetrada pela janela parece expor com certa delicadeza nobre seu pudor. Senti efervescer meu sangue, rangi os dentes. Da minha mente, foram cuspidos alguns sons que não consegui decifrá-los. Todavia, excitavam-me a imaginação e meus dedos formigavam, diante do medo e da sensação de dúvida que pairavam à frente escurecida do meu devaneio.

      Embora tudo ali me repreendesse, o monóculo continuava imperioso em meu pensamento. Seu ângulo de inclinação, a lente semimorta e puída pelo tempo, fixa como um detalhe, neutra e instransponível como as paredes erguidas por palavras mudas ou escritas em código. Sem que pudesse compreender, meus nervos contraíram-se, meus sentidos adormeceram, meu corpo contorceu-se e fragmentou-se. De mais a mais, aos poucos, desfez-se a defesa do meu espírito e, embriagado numa experiência intrigante, adentrei aquela fina lente de vidro e de contraste marcante. Senti-me levado a outra dimensão. Senti-me forjado, arrancado da minha realidade e posto em alguma espécie de memória truncada e sem vida.

            Havia sobre à cama um relógio interrompido às duas da tarde e um cancioneiro com suas páginas riscadas. O que se passara nessa alcova de tão insigne arrumação? Perguntei-me estupefato olhando ao redor em busca de algum detalhe que incriminasse a história, que revelasse a postura emérita daquele espaço desassistido. Confesso, senti-me perturbado. Tudo ali desarmou minha necedade, ancorou em mim um inadiável interesse. Talvez, atraí-me por espanto.

            Era como se a vida e tudo que conheço se resultassem de uma introspecção entre o vazio da realidade e as águas impassíveis do coração de um poeta, o qual vive manso a loucura do presente, o qual embrulha junto ao medo seu desejo de sonhar, o qual faz do tempo seu tesouro, para o qual o amor é sua fonte inesgotável de resiliência. Talvez, viver seja perder-se entre as páginas adormecidas de um cancioneiro ou de um livro de poesias.

            Destarte, a vida é muito curta. Portanto, devemos amar. Não amar tarde ou de menos, ou em momentos: amar o quanto o nosso coração puder. Às vezes, o amor não é remédio nem cura. O amor é um ato, é um fato (o amor é sentido e sugere reflexão). Outras vezes, o amor se obstrui, esvai-se. Mas de fato e ato, o amor é imprescindível da nossa essência. Devemos cultivar amor e regá-lo, ininterruptamente, com a confiança. Somos feitos de desespero e, às vezes, isso provoca a dormência de tudo em nós. Mas, o amor não morre, sentimos ele resistir à inércia afora, pois, como a gramínea machucada, ele vai brotando entre os vãos secos e intempestivos dos nossos sentimentos. Sou imutável em dizer que o amor é uma costura. Sim! Ele se apresenta icástico como na fabricação de uma peça de roupa feita pelas mãos exauridas de uma pessoa comum, que já passara anos, de ofício, cosendo seus estofos. O amor, em essência, assemelha-se ao artesanal trabalho de uma costureira, aquela que se dedica, unicamente, ao seu dom: costurar com amor. Sua máquina manual ultrapassada e desgastada, na qual os anos imprimem sua marca de valor. O ambiente, que, sem os tantos retalhos espalhados, não teria cor. O alfaiate, à sua mesa, alinhavando, arduamente, os tecidos, que em breve tomariam espaço em um cabide de seu ateliê e, logo, adornaria o talhe de uma donzela, em uma data especial, assim, ressignificando a importância do efeito de coser... do amor, afinal. O amor também é uma indumentária, a qual tecemos, diariamente, com a delicadeza da artesã e que fazemos à medida de nosso torso, o mesmo amor que se passa anos (atemporal) sem perder o prazer praticado pelo dom, pois, em nosso coração, nessa máquina de imensurável valor, costuramos cada estofo de amor. Incumbe salientar, oportunamente, que o amor provocado não volta ao seu estado de inércia, ele não permanece fleumático.

            A dor incômoda dessa concepção ataca-me em pânico e derrubo sobre o chão o relógio adormecido, provocando a ruptura desse devaneio, que irrompe em um silêncio de inexistência.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

O Homem do novo século

Por mais complexo que o século XXI aparenta ser, não se pode escapar à consciência de que ditou novos rumos para evolução do pensamento humano, em especial a forma com que olhamos para o outro, não com um rótulo ou classificação social, vemo-lo a partir de nós mesmos, isto é, não só como seres que temos limitações, medos, dificuldades, mas sim, capazes de nos relacionar, exprimir anseios, emoções, gerar confiança, autocontrole, sermos produtivos, enfim, de pormos nossa indumentária essencial: o altruísmo. Assim, passamos a nos conceber como seres mutáveis, diversos em moral e cultura.
Isso, nem a história atemporal fora capaz de amolgar, porque o homem se levantou de seu ócio, subscreveu sua manumissão. Ariscou-se em uma mudança integradora e homoexponencial – a capacidade do ser humano de ir além de sua matéria carnal, possuidor de uma hombridade inócua e ilibada, esta, uma moeda cultural, que lhe permite a troca de empirismo cotidiano, outrossim, que facilita o processo de coexistência.
Outrora, essa mesma diversidade, os valores que hoje são universais, confrontaram com a permissão das leis antigas, estas, resumo de uma mentalidade avulsa, incompleta, desnorteada, sem nexo nem pertinência em comparações sistemáticas às acepções psicoculturais que jazem na contemporaneidade. Antes, vivia-se o espectador, um cara amargado pelas correntes do inatismo, da seleção genética, pelas políticas de eugenia – termo, este, cunhado por Francis Galton, em 1883, para definir o insumo populacional de “bem nascido”. Devido a estas políticas, muitas pessoas que não respondiam a tal padrão físico ou mental exigido, eram mutiladas ou abandonadas à própria sorte, a justificativa não era apenas um fator de ódio implícito, mas também, ora uma forma da nação de população de poucos direitos se exonerarem da responsabilidade dos “inúteis”, ora usar o homem como instrumento de guerra (a preocupação com um corpo ideal), já que essas nações viviam sempre em conflitos.
Com o advento das novas tecnologias e o desenvolvimento da Ciência, esse olhar imperial, foi aos poucos se desfazendo, dando lugar ao “homem expectador”, aquele que busca não se deixar obscurecer por esses fatais resquícios históricos da humanidade, aquele aventureiro de alma limpa. Um homem destinado a inovar-se a cada nova incumbência de destinos. Um homem mais permissivo do que impositivo. Este é o novo semblante da humanidade, o padrão de homem ainda esperado para o século XXI: o homem determinado.

Matheus Ernandes Monteiro de Moraes, Faculdade Educacional da Lapa (FAEL), graduando no curso Licenciatura em Letras: Línguas Portuguesa e Espanhola.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Https://pt.wikipedia.org/wiki/Eugenia
O. de A. Passos, Marileni. de Camargo Bastos, Vívian. O. de Gomes, Walquíria. Fundamentos e Metodologia do Ensino Especial.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Uma língua construída por variações

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

No que se refere às variações linguísticas, importa destacar que sua ascensão foi histórica e gradativamente construída, e, se considerarmos o fato de uma língua que ainda possua usuários, estão sujeitas a serem moldadas para que se possam engendrar em novos tempos, a se adaptarem aos novos paradigmas e acepções psicoculturais. Outrossim, vale destacar que o processo, pelo qual a comunicação é explorada, deve exacerbar a continuidade da língua, porque ele é responsável pelos diversos formatos que a mesma adquire, basta fazermos uma pesquisa diacrônica da língua que estiver sendo considerada, por exemplo. Desse modo, ela só adquire esses novos formatos quando o código estiver em uso, porque partem da experiência intrínseca do indivíduo com o meio em que está inserido.
        Sabe-se que as variações são classificadas entre formais e coloquiais, enquanto seus estudos asseveram sobre a importância do comportamento linguístico, isto é, em que situações optaremos por uma ou outra variação da língua. Por isso, faz-se necessária a compreensão do conhecimento linguístico acumulado até então, porque conhecer as vertentes de uma língua é um primeiro passo para saber por quê, quando e como usá-la. O segundo passo seria romper com as amarras do preconceito linguístico, que está impregnado no seio da sociedade, o qual define previamente quais são os papéis sociais de cada variação, sem pôr em pauta suas negociações de uso que ocorrem entre contextos, ressalvando que cada variação serve para designar uma posição social, cria-se, então, paradigmas linguísticos dicotômicos.
        Em análise, o poema de Oswaldo de Andrade, intitulado Pronominais, mostra a divisão da sociedade em dois português, nas expressões dos versos: “dê-me um cigarro” – “gramática do professor e do aluno e do mulato sabido”; e, “me dá um cigarro” – “o bom negro e o bom branco”. Grifo que a norma padrão não é usada por ser requintada, ao menos, isso torna seus usuários, malfazejos, ou padroniza uma expectativa social. Ela é mais uma opção, que auxilia o usuário da língua no ato de comunicação, já que esta só terá continuidade caso os componentes do discurso dominem o código usado, então, não adiantaria usar a norma padrão em um contexto em que haja coloquialidade, tal-qualmente, o conselho serve se a situação for contrária.
      Por conseguinte, em um ambiente marcado pela diversidade linguística, integrá-la é valorizar costumes, respeitar formações identitárias pré-concebidas. As variações são encaradas, hoje, como construtoras da cultura do país e juntas formam a língua, no caso do Brasil, a Portuguesa. Por isso, importa dizer que o aspecto social das mesmas é de formação original, expressam o modo de vida de um grupo de pessoas, reúnem sabores, envolvem-se nas formas de se relacionar, despertam uma ideologia complexa e neutra, isto é, refletem um conjunto de ações e necessidades humanas que as modificam no galgar do tempo e são contribuintes para o engendramento de novos discípulos, sem mensurá-los ou estabelecer uma linha paralela entre as variedades da língua, impondo, assim, a não anuência de uma intersecção natural entre as mesmas.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O analfabetismo: a importância de educar

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes 

No Brasil, sabe-se que o analfabetismo é consequência tanto de processos e legislações políticas quanto da abertura de espaços para a modernização ainda no rompante do século XX. O dicionário Larousse Cultural (1992) define moderno como sendo aquilo “que pertence ao tempo presente ou a uma época relativamente recente; hodierno, atual”. O desejo de inovar, a preocupação do governo em exibir uma imagem de sociedade saudável, vista, muitas vezes, pelo viés das guerras de resistência que sucederam pelo período, cito as Revoltas da Vacina e da Chibata, 1904 e 1910, respectivamente, ambas ocorridas no Rio de Janeiro; contribuíram para a marginalização das pessoas de classe social desvalida, já que estas foram desabitadas dos grandes centros afim de transformar tais intenções em projetos modernistas.
O percurso do analfabetismo é extenso, contudo, pode-se notar, em 1960, por exemplo, que esteve atrelado à retomada do processo de migração sentido Amazônia, para extração do látex, com massa popular composta basicamente por nordestinos a busca de melhores condições de vida. Outrossim, como apontam pesquisas realizadas por Suzana e Marilei (2007), também cabe a ele a responsabilidade da crise econômica industrial nacional, ocorrida ainda no ano sessenta. Nesse ínterim, surgem os Movimentos de Educação Popular, em que houve reunião entre intelectuais da educação acerca do método freireano, cujo objetivo era minimizar o percalço, senão erradicá-lo. Outro fator importante, a LDB de 1971, que voltou a atenção para a educação básica, salvaguardando a formação do pupilo, assim, definindo desde regras, habilidades e compromissos. Alertando que as eventuais questões apresentadas ao cenário social do país exigiam novos olhares metodológicos, humanistas, integracionistas, que formassem o cidadão ativo e consciente de seus atos na sociedade.
A rede de notícias UOL (2016), ao citar uma pesquisa realizada em Todos Pela Educação (2016), reafirmou que são cerca de 2,8 milhões de brasileiros sem acesso à educação. No que tange a perspectiva social da educação, tendo por base o contexto histórico em que se desenvolveu a educação brasileira, nota-se que os números ainda são alarmantes e que atingem principalmente o leito das classes menos privilegiadas, o que muito se deve à desigual redistribuição da riqueza no país.
Se, por meio da Constituição Federal de 1988, o Estado brasileiro se comprometeu, juntamente com a família, em seu art. 205, a oferecer o ensino a todos; parte daqui a iniciativa em desenvolver estratégias que garantam a permanência e o acesso ao ensino, inclusive aos que não o fizeram na idade certa. E cabe aos ente federados a fiscalização e o incentivo ao ensino. Para isso, programas sociais como o Bolsa Família, se bem aplicados, poderão ser ferramentas importantíssimas, quando olhamos para as questões sociais que ocorrem em nosso país, como a fome, a miséria, crianças que largam os estudos para trabalhar, devido o alto índice de pobreza existente em algumas regiões. Não somente os programas sociais são de grande apreço, mas também, que a sociedade passe a integrar essa população, por meio de ofertas de emprego para a família. Na condição de aprendiz, dever-se-á respeitar aos dispositivos da Lei 10.097, de 19 de dezembro do ano 2000.
Em um contexto de crise política, como a atual vivenciada pelo país, muitos paradigmas e acepções sociais tornam-se motivos de galhofa ou descontentamento por parte dos telespectadores da engendrada trama. Contudo, importa destacar que esse é o momento exato de revisar nossas ideologias e promover reformas na central da sociedade: o governo, as políticas públicas, o pleno exercício das leis, educação, saúde, moradia. E, sabe-se que a instituição escolar é a porta-voz das inquietações sociais, por isso, faz-se necessário se utilizar da educação, embasada em métodos científicos, como ferramenta para a construção de uma nova mentalidade à respeito do cidadão – este, peça fundamental do processo de anexação da identidade cultural e formação conscientizada para agir ativamente na sociedade, provocando mudanças em prol do coletivo. Também, parte dessa conscientização a solução de problemas enfrentados na educação.
Para que se possa olhar para o passado histórico da educação, faz-se necessário romper com as amarras da dicotomia escolas de antes eram mais formativas que as de hoje, porque, é indubitável dizer que as falhas no ensino das escolas de hoje se resultaram das contribuições, que antes eram tidas como pertinentes. Portanto, o que se tem a propor é desconstruir esse cenário para que se possa inová-lo. Entretanto, isso não é uma tarefa fácil, porque estaríamos mexendo com a estrutura de toda uma sociedade, isto é, nas acepções psicoculturais – sobretudo, as ideológicas, políticas e econômicas – que se solidificaram no seio da mesma.
Para isso, o professor deve ter uma formação universitária e continuada. Assim, desenvolvendo planos de carreira, metodologias e conhecer os caminhos para uma educação universal. Poderá compartilhar, no meio acadêmico, experiências em sala de aula e resultados pedagógicos com outros versados nas relações humanas ou receber auxílio de renomados autores que se acamparam nos estudos educacionais. Concomitantemente, elaborando estratégias para tecer as indumentárias da inclusão e da diversidade, isto é, construindo um pensamento mais humanizado e tolerante. 
Por conseguinte, o analfabetismo é uma herança histórica, por isso, sempre esteve presente na consolidação das estruturas sociais então vigentes, o que influencia na qualidade de vida da população, no rendimento profissional. Assim, deve-se buscar, por meio de políticas públicas, incentivar o letramento de crianças e jovens, que não tiveram acesso à educação na idade própria. Para tanto, vale ressaltar que a educação é social, portanto, não só ao governo ou não só à escola cabe a responsabilidade do progresso educativo, à sociedade também. Unidos, poderão desenhar uma nação próspera e esperar que os efeitos se desabrochem. E uma nação sem pobreza e com índices sérios de educação de qualidade, é uma nação economicamente organizada. Então, o primeiro passo a ser dado, em uníssono, é romper com as amarras da dicotomia dominantes e dominados, que ainda impregnam mentalidades avulsas. Outrossim, é pertinente anuir sobre a importância da divisão da rotina escolar – trabalhos teórico e prático, o uso tecnológico nos planejamentos pedagógicos, bem como, a seleção informativa e adaptação dos variados textos que circulam na íntegra, intimamente ligados à função social da educação. E volto a afirmar sobre o trabalho transdisciplinar e sua influência para a adesão cultural do discípulo.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Ócio

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Entre um ócio quebrado,
Um vaso rachado,
Um leito secado,
Uma espiga aleijada,
Um esmurro acanhado,
Um beijo alienado,
Uma rosa murchada,
Uma pedra caloura, à vida incitada ...
Uma pena é recolocada na tinta
E em cócegas pretas, como a fuligem,
Atingem o papel em magistral afinco
As marcas que se deixam anuídas, se agravam,
Problematizam-se!
Para tanto: fortes, combustíveis helênicos.

A guerra inicia-se estupefata, ansiosa
As linhas reiteram-se e voam, perdem-se por milênios
O branco aguçado exacerba-me as imagens condoídas
O branco as espera desejoso, no incêndio da coordenação motora
Mas as linhas se foram, não se hesitam em não volver,
Pois, elas já são do mundo e não mais tuas
Fecundas, em outro reino, germinam a glória que te enterrará.

Ao Norte, foram lançadas
A sobrevivência, ameaçada
Que te engolem sem pressa
Que possuem passos viperinos
Que são concomitantes a tua negligência

... São elas! As tuas palavras!
Por que passara anos buscando nos cais
As quais deixara cair de tua boca,
Sem a íntima revisão pujante.

sábado, 10 de junho de 2017

A indumentária humana

 Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Convidem-me ao botequim que me arruinara outrora
Arranquem-me destas raízes que se tornaram profundas
E que estivera a se materializar em mim
Agora sou pedra dura, porém, ilibada – assim de difícil lapidação.

Sou as costas que foram limpas das asneiras que o tempo cuspiu
Sou a noite orvalhada pelo prazer de existir
Assim, sem rumo, entro no destino e deixo de viver, e, sinto-me existir
Ora, sem estar presente, escrevo ao tempo um bilhete e deixo-o na mesa
Peço-o que se espante e que, na corrente, depressa se esconda
Ora, o passado, volta errante e me esmurra o estômago
Exacerba-me que o devolva o tempo perdido
Não o encontro! O que faço? Repito a dose? Digo-o que não me lembra?
Tusso um presságio?
Engano o ladrão.

Em frente ao espelho, olho que as rugas crescem como uma águia atenta
Os cabelos murcham como a pétala de uma flor quando se adormece
A pele afinou-se nos degraus inquietos da velhice à espera da camada final
Apoio-me no corrimão, este já em luto e olho meus dedos se esboçarem desdenhosos
O lampião, embora cansado, rejuvenescera-me a imagem há muito
Sinto a luz penetrar-me e perder-se pelo corpo em um aconchego excitante, quase jovial
O regozijo seda-me, ainda que o sofisma seja imóvel e exaure-me depreciativamente.

Meus passos são lentos
Não sei se o alcanço a tempo
Mas sei que o tempo em mim não vive mais, é estrela acamada
Serei passado quando cursar a esquina que o destino irá apagar.

Mas, embora eu perca a força, perca o ânimo, perca meu cerne...

Apresento-lhes esta: a indumentária humana!

domingo, 4 de junho de 2017

Lua cheia

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Bate-me um desejo sombrio
As velas que se apagam
A brisa que se estremece
Ouço pisadas fortes de cavalos na areia
Gritos enlouquecem-me!

A lua é cheia...
Sinto-a que em minha vazante se assenta
Em minhas entranhas começa a revolução
Sua vigilância é valetudinária

O corpo ganha forma, os pelos nascem em uníssono
Um eldorado me habita, saqueia-me o espírito
A força autônoma que me impulsa o uivo
A fera que se corporifica em mim

Uma sede umbilical que se irrompe
O mal cheiro que se incute gradativamente
Os reflexos que se conflagram
Outrossim, a anuência que coexiste

Mas as palavras já não continuam lá, fleumáticas.