Era de uma estranheza líquida, de um semblante amargo e
translúcido como a água imensa de um oceano que repele qualquer corpo intruso,
qualquer alma vaga, qualquer segmento sem nexo, qualquer destino sem introito.
A inexistência é fenômeno da reclusão, do não sentido, do pouco confessado, de
uma geração com seu norte embaçado, é a inconsistência de um leito, é a vida
simplesmente ancorada e camuflada em sua taxonomia, em seu cerne congelado. Na
inércia das coisas e dos sentimentos, a inexistência é um refúgio.
Ouço vozes abafadas nas correntes da dor, vejo
sentimentos colidirem com as águas agitadas e insensíveis do corpo humano, este
feito de marés demolidoras e imagens perturbadoras de um sofisma inquietante
como se fosse uma navalha escondida entre a consciência e a imatura ilusão do
pensamento. Avistei ainda, na intempestiva noite, fora os clarões sarcásticos
da alma, os rabiscos contínuos, eufóricos, aviltantes e aterrorizadores da minha
paulatina viagem. Há azáfama entre os manuscritos sustentados em suas próprias
indumentárias amolgadas.
O sonho havia me tresloucado. Percebi que já eram seis e
quinze da manhã pelo cheiro da cidade a pôr-se de pé nas calçadas ainda húmidas
com o orvalho noturno, do cheiro inconfundível das rosas campestres adentrando
as entranhas da jovem jornada recomeçando seu ciclo bagunçado e mal arejado.
Agarrei-me aos óculos, que se quedaram em cima do pequeno criado mudo, pertencente
ao cavaleiro medieval Rodrigo Diaz de Vivar, o grande campeador do Alferes de
Navarra, em um período em que a emergente Hispânia encontrava-se dividida entre
reinos cristãos e mouros, adquirido por meu avô, em meados do ano de 1989, quando
tal objeto histórico procedia-se em um leilão. Apalpei o jarro de flores e
avistei pela janela recém-aberta uma curiosidade virgem em seu âmago: um
pressentimento afastado dos grandes monólitos de concretos rudimentares que se
entrelaçavam pelas linhas curvas e inexprimíveis de minhas emoções e das ruas
cegas e acostumadas com o tráfego urbano calamitoso e cada vez mais moderno.
Mas, sufoquei-a com simples golpes de incredulidade e desconfiança, pois,
amiúde, tornei-me autor desvairado e sem semblante, reflexo e contaminado pela
humanidade (a face obscura de mim mesmo). Ademais, as vitrines já vendiam suas
roupas estrangeiras, ditadas pela moda europeia. Até o porteiro já houvera há
muito se globalizado, tornava-se mais formal com o apressar do tempo. Não se embriagava
nas noites em que a lua desabrochava nos cais, tampouco escrevia em seu livro
de poemas. Aderiu-se ao símbolo repugnante, finalmente. Outrossim, percebi, em
seu olhar mal dormido, que envelhecera uns quinze anos, tomava remédios
periodicamente, não mais amava as noites claras de relento, dormia cedo. Tão
logo, esquecia-se do tempo inédito. Deixava-se dominar por uma ternura belicosa:
distúrbios de uma personalidade inerte e opaca. Nesse ínterim, eclodia-se nas
ruínas de sua existência um reino alienado, sustentado por intrujices
escorchadas.
A humanidade é uma prole caótica de Atta Cephalotes
destruindo a própria essência, atrás de cada olhar mora os tentáculos de uma
maldade inata. É um ser castigado pelo ventre de sua progenitora, esquecido nas
áridas e inférteis sensações, repelido pelo estômago de sua própria concupiscência,
cuspido das cinzas de sua espécie, tem na alma do abutre seu refúgio, espólio
de turva estirpe e ascendente de uma geração inclinada a posturas amolgadas.
A vida é como um sopro frio e torturador da imagem de sua
sombra. E o perigo está em a sombra ser iconoclasta, inclinação para a postura
alienada da humanidade, onde sua imagem é opaca, onde o frio não sopra, onde
nada desabrocha, onde a vida é seca. Assim, descobri-me inerte tracejando em
vão, refém e amordaçado pela transfiguração. Sinto-me exaurido! Na verdade, não
me sinto. Não compreendo a ideologia de minha prole. Minha mente foi saqueada e
meu espírito já perdeu a essência. Estamos devorando, como que famintos pela
destruição, nossa ecumênica virtude e aos poucos nos transformando em uma
espécie niilista, ignorante e desprezível. Sinto-me “um tupi tangendo um alaúde”.
Sobre a mesa reluzia uma fotografia envelhecida de um
senhor sorridente contendo seu monóculo sobre o arcabouço, de uma beleza
jovial, de um ânimo pouco explorado, calcado em um empirismo atônito e
enigmático, cada ângulo seu tentava expressar com timidez um relato tardio
internado em sua feição, talvez, mostrasse com apreensão as amarras abrasivas
que ceifavam sua manumissão, reduzindo-o a escravo de um quinhão, de uma visão
maçante, de um desprezo impensado. Há quanto tempo tal retrato permanecera tomado
pelo descaso, largado à estante empoeirado? Por que tão somente agora sua
presença se faz tão perceptível e curiosa? A luz compenetrada pela janela
parece expor com certa delicadeza nobre seu pudor. Senti efervescer meu sangue,
rangi os dentes. Da minha mente, foram cuspidos alguns sons que não consegui
decifrá-los. Todavia, excitavam-me a imaginação e meus dedos formigavam, diante
do medo e da sensação de dúvida que pairavam à frente escurecida do meu
devaneio.
Embora tudo ali me repreendesse, o monóculo continuava
imperioso em meu pensamento. Seu ângulo de inclinação, a lente semimorta e puída
pelo tempo, fixa como um detalhe, neutra e instransponível como as paredes
erguidas por palavras mudas ou escritas em código. Sem que pudesse compreender,
meus nervos contraíram-se, meus sentidos adormeceram, meu corpo contorceu-se e fragmentou-se.
De mais a mais, aos poucos, desfez-se a defesa do meu espírito e, embriagado numa
experiência intrigante, adentrei aquela fina lente de vidro e de contraste
marcante. Senti-me levado a outra dimensão. Senti-me forjado, arrancado da minha
realidade e posto em alguma espécie de memória truncada e sem vida.
Havia sobre à cama um relógio interrompido às duas da
tarde e um cancioneiro com suas páginas riscadas. O que se passara nessa alcova
de tão insigne arrumação? Perguntei-me estupefato olhando ao redor em busca de
algum detalhe que incriminasse a história, que revelasse a postura emérita daquele
espaço desassistido. Confesso, senti-me perturbado. Tudo ali desarmou minha
necedade, ancorou em mim um inadiável interesse. Talvez, atraí-me por espanto.
Era como se a vida e tudo que conheço se resultassem de
uma introspecção entre o vazio da realidade e as águas impassíveis do coração
de um poeta, o qual vive manso a loucura do presente, o qual embrulha junto ao
medo seu desejo de sonhar, o qual faz do tempo seu tesouro, para o qual o amor
é sua fonte inesgotável de resiliência. Talvez, viver seja perder-se entre as
páginas adormecidas de um cancioneiro ou de um livro de poesias.
Destarte, a vida é muito curta. Portanto, devemos amar. Não
amar tarde ou de menos, ou em momentos: amar o quanto o nosso coração puder. Às
vezes, o amor não é remédio nem cura. O amor é um ato, é um fato (o amor é
sentido e sugere reflexão). Outras vezes, o amor se obstrui, esvai-se. Mas de fato
e ato, o amor é imprescindível da nossa essência. Devemos cultivar amor e
regá-lo, ininterruptamente, com a confiança. Somos feitos de desespero e, às
vezes, isso provoca a dormência de tudo em nós. Mas, o amor não morre, sentimos
ele resistir à inércia afora, pois, como a gramínea machucada, ele vai brotando
entre os vãos secos e intempestivos dos nossos sentimentos. Sou imutável em
dizer que o amor é uma costura. Sim! Ele se apresenta icástico como na
fabricação de uma peça de roupa feita pelas mãos exauridas de uma pessoa comum,
que já passara anos, de ofício, cosendo seus estofos. O amor, em essência,
assemelha-se ao artesanal trabalho de uma costureira, aquela que se dedica,
unicamente, ao seu dom: costurar com amor. Sua máquina manual ultrapassada e
desgastada, na qual os anos imprimem sua marca de valor. O ambiente, que, sem os
tantos retalhos espalhados, não teria cor. O alfaiate, à sua mesa, alinhavando,
arduamente, os tecidos, que em breve tomariam espaço em um cabide de seu ateliê
e, logo, adornaria o talhe de uma donzela, em uma data especial, assim,
ressignificando a importância do efeito de coser... do amor, afinal. O amor
também é uma indumentária, a qual tecemos, diariamente, com a delicadeza da
artesã e que fazemos à medida de nosso torso, o mesmo amor que se passa anos (atemporal)
sem perder o prazer praticado pelo dom, pois, em nosso coração, nessa máquina
de imensurável valor, costuramos cada estofo de amor. Incumbe salientar,
oportunamente, que o amor provocado não volta ao seu estado de inércia, ele não
permanece fleumático.
A dor incômoda dessa concepção ataca-me em pânico e
derrubo sobre o chão o relógio adormecido, provocando a ruptura desse devaneio,
que irrompe em um silêncio de inexistência.
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