Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes
Tudo é efêmero. Tudo se muda com uma frequência
inexorável. O mundo é aceito por sua fundamental e unânime personalidade de
compor-se e recompor-se, ora grave, ora agudo. Uma extraordinária explosão de
caracteres em simples partículas amontoados entre si, constituída a imagem de
uma matéria peculiar, a qual se serve de uma indumentária sarcástica e munda.
Os ventos partem com a irritabilidade da espera, de quedar-se densos em uma
cadeira pífia, à qual se assenta à espera da grande atração inconveniente e
antipontual, lendo ao jornal embriagado por notícias corriqueiras e acidentais,
que permitem ao usuário ali esquecido o último gole incrédulo de seu prazer
inexequível e bárbaro. Tudo calado, o relógio a quebrar o espanto das coisas –
grita em som ameaçador que interrompe os sentimentos humanos cravados no âmago
dos novos personagens desse novo dia impermeável e sombrio. As lágrimas são
expostas pelas noites mal dormidas, pelo desencontro forçado pelo destino, pela
guerra deixada inacabada e trincada por motivos adversos.
Ouço o falar comigo de uma mulata cearense que decidida a
mudar-se de vida abriu-se às portas da grande metrópoles para seu descanso
inundado de perspectivas. Porém, era uma jovem irracional e decorativa desse
sistema emergente e grotesco. Não consegui escutar o que dizia, pois minha
audição permitiu-me à visão, a reconhecê-la por sua imensurável estrutura
espiritual – do que se compõe essa bela moça, o que há por trás desse ultraje
educado?
Ouço-a novamente tentar captar minha atenção à
sua propaganda enganosa, a de uma sociedade capitalista universal. Já
desistindo de mim, respondo-a confusa – onde estou? Como e por que vim parar
neste lugar?:
– Desculpe-me... Desculpe minha indelicadeza...
E como já ensaiada e redecorada sua frase quase
indutora ao referir-se ao cardápio, pergunta-me com uma expressão chocada:
– A senhora já decidiu o que irá pedir?
Como por impulso, pedi-lhe uma xícara de chá e biscoitos para
acompanhá-lo.
Lá fora a chuva cai se colocando contra a janela, à minha
direita vejo-a em seu desespero ao ser lançada para o chão como demônios
subjugados, em um ciclo preciso e ininterrupto. Tento esconder minha obcecada
tentação em ir lá fora sentir a fúria da natureza, dedicada à humanidade
inescrupulosa e valetudinária – rasgar as mangas e o colarinho bem engomado, a
sentir com a incapacidade corruptiva a dor que ela carrega em seu antebraço
petrificado, doído de remorso, de uma angústia lapidada em seu intrínseco. O
que me mantém aqui, ainda, é a Espera fragmentada, a memória introspectiva e
absoluta: o chá por qual meu inconsciente tomara fala.
Sou a metáfora esquecida, que serve apenas para forrar as
lembranças arcaicas e codificadas, as quais não tenho acesso imediato, mas
acredito que esteja em alguma parte inédita e irreconhecível – o desastre dos
muros que permeiam a liberdade de reconstituir-se aos anseios da vida,
reunir-se como um exército desbravador nos poros que reluzem ao destino
cambaleado e destrutivo de cada passo que damos, as marcas que geram as
cicatrizes inconsoláveis. A superfície do ser humano é impenetrável, de campos
desgastados por intrigas não correspondidas – um deserto tempestivo que sufoca
a humanidade, viola os correlacionados, embora resseque a desunião. É uma
fraqueza mobiliada.
Ao tomar conta da realidade, vejo que já se passaram meia
hora e o chá esfriara. Contento-me em uni-lo ao meu desespero sombrio, minha
indignação ferida. Meus lábios tremem à medida que vejo o chá tomar vida em
mim, sinto-me como em uma transição entre as teias movediças de uma aranha
engenhosa e a fusão iconoclasta de uma essência perdida. Os prazeres são
criaturas vindas de um mundo estranho aptos a nos atemorizar, quando não nos
engolem, famintos. Tenho a sensação de que envelheci dez anos neste lugar, que
fora carregada pelo tempo até chegar aqui... aqui onde me vejo completamente
difundida... em uma união desordenada da matéria, agora ainda mais inquieta,
sensibilizada.
Abro o pequeno bolso e retiro uma semilha em que o tempo
cravou sua face.
Às vezes, um segredo é, em comunhão à liberdade, um traço
confundível entre um rabisco e um engenhoso monólito em ruínas, cravado no
rascunho de um abismo, este a amolgadura de um vaso adubado e fecundo. Um
segredo é a arma que corrói no âmago da azáfama de uma amálgama aturdida,
ancorada aos efeitos nocivos e perdulários de sua constituição íngreme. E este
segredo se revela quando o sol, cavalheiresco e medieval, abre suas asas para
encontrar-se brevemente com a lua, recém-liberta do ventre da escuridão. Ambos
se fitam, logo se vão. Acrescem-se aos seus destinos inconciliáveis, às
tormentas solidificadas, aos espaços irretratáveis e sucumbidos. Às chegadas
misteriosas e às esperas canceladas. Até que o último brilho ofusque ojerizo.
Saem trechos desconexos de minha memória, bordando-se com o
vago e o impreciso e diz-me que a glória se traja crua e diabólica, se
enriquece do que é frágil no sistema imune ao que o é aviltante. A cada
curvatura, a cada passo deixado impresso na calçada, a cada pensamento atirado
contra uma multidão como se aquele fosse um terrorista compenetrado na massa
periódica, se desabrocha como se, em uníssono, o tempo e o destino se
colidissem. E cravassem na garganta de todos os envoltos o ressecado caco
destruído, como na maldição as trevas recorrem ao preço absurdo da permutação.
Somos fragmentos reorganizados à existência exigida por uma estrutura
intransponível.
Ora, o som é inconsciente. Bate. Foge. Grita. Enlouquece.
Delira. Volta. Bate. Some. Reúne montanhas e desaba. Nasce. Chora. Cresce.
Reproduz. Envelhece e é decomposto em si mesmo, intocável e despercebido.
Novamente nasce, chora, cresce, reproduz... torna-se estagiário nesse ciclo
insólito e travesso, quando, de repente, às margens do mar, as ondas o atrai e
devora.
Via-o naquela cama de hospital, ao anotar em seu prontuário
seu contínuo regresso, assim também, as cicatrizes a se fecharem como se me
dissessem que ele atingiria seu ápice terminal e galoparia de volta à vida como
se o tempo o gestasse e por lei da natureza deveria dormir em seu ventre. Era
um viajante nas próprias entranhas.
Vinha curvo sob o próprio tronco eriçado naquele deserto miserável, sem pena das pobres almas que ali se juntavam para a travessia misteriosa e emblemática. O sol cursava sua rota, porém inquieto como se pusesse na chama da tarde seu anseio pelas noites calmas, que da terra vermelha e cansada de tanto se abater entre os vãos roliços da ternura brotasse a esperança, que retornasse ao eixo o destino furtado pelo arrombo do tempo, pelo desprezo da natureza, que havia meses castigava aquele pedaço de vida inerte, submisso ao imponderável, à iníqua espera.
Vinha curvo sob o próprio tronco eriçado naquele deserto miserável, sem pena das pobres almas que ali se juntavam para a travessia misteriosa e emblemática. O sol cursava sua rota, porém inquieto como se pusesse na chama da tarde seu anseio pelas noites calmas, que da terra vermelha e cansada de tanto se abater entre os vãos roliços da ternura brotasse a esperança, que retornasse ao eixo o destino furtado pelo arrombo do tempo, pelo desprezo da natureza, que havia meses castigava aquele pedaço de vida inerte, submisso ao imponderável, à iníqua espera.
Suas pernas fortes varriam as pedras, as folhas secas caídas
sobre a grama mordida pela sede, corrigia sua postura e seguia em frente. A
vila escondida atrás das montanhas pesadas estava gasta, culpadas pelo remoto
traço desfeito. As calçadas vestidas de luto e, em seus círculos fugazes
gritavam alvoroçadas para o horizonte, único lugar onde ainda se viam a luz,
com os estilhaços agarrados na face da garganta. As portas entreabriam-se em um
vaivém ruidoso. Nas ruínas da vila se podia compor a angústia com que o tempo
devorou o espaço marginalizado ao ressoo das guerras travadas pelo domínio do
campo, judiado pelas traiçoeiras mãos carregadas de munições. As velhas telhas
de madeira reduzida à pó se transformaram em ninhos de pombos; as faixadas das
casas, de abrigos para as cobras e lagartos; e, o chão frio da esquecida vila
malfeita pela dor com que o destino pincelou em seu tocante olhar fúnebre,
serviam de pousadas aos viajantes, que cansados e entrecortados pela noite se
apaziguavam com o triste semblante do local. Ali caíam moles e entregues aos
braços selvagens daquela natureza incrível, nunca abusada pelas mãos excitadas
dos homens ambiciosos a explorar a virgem sombria.
O viajante não parecia estar surpreso ao adentrar àquele
turbilhão de sentimentos faiscantes, joviais e ininterruptos. Não tinha pressa,
contemplava a inexorável afabilidade decaída. Dirigia-se sôfrego, vivo, como se
buscasse algo que ali teria perdido com a travessia dolorosa e indubitável.
Tardava e o jovem retornava escondendo-se dentro de um capuz mergulhado sob à
noite lacrimosa, cavalgando seu belo cavalo veloz, que logo desapareceria no
horizonte – onde se viam a luz.
Escorregou-se, frustrado levantou-se. Avistou uma casa, que o
deixou trêmulo. A espiava pela janela o estado que a deixaram: as telhas de aranha
já cobriam grande parte dos móveis, a fogueira estava morta, o sofá recoberto
de cupins, a chaleira ainda na mesa como a deixaram no instante de azáfama, o
descuido com o velho vaso de margarida havia feito a flor murchar, o tapete
feito de rendas estava submerso à poeira que ali também buscou abrigo, o fogão
de barro desaparecido entre os caibros soltos do teto... seus olhos se
assombraram... na cadeira... Olhe! A camisa verde!
Ao entrar na casa era acompanhado pelo ranger das tábuas em
que pisava, seus olhos antes brilhosos, agora negros e afastados.
O vento com sua fúria atravessava as grelhas enrugadas do
velho casebre e iam morrer, surpreso, na boca do homem parado ao lado da
fogueira recém-acesa, aquele que, aos poucos, regressava ao início das transformações.
Olhava a brasa queimar-se. Ouvia o sangue nas veias fechada, impedido de chegar
ao seu destino, de acender a vida em todo seu corpo exaurido. Sua dor era
escorregadia às mãos quais a tentasse capturá-la.
Sinto-o.
Vejo seu rosto geométrico, suas curvas corporais conservadas,
suas mãos finas de alvoroço, sua simplicidade pura e fascinante, seus olhos
filtrados pelos óculos de um aro gasto pela rotina. Sua imagem torta debruçada
nas cordas bambas de minha imagi... abro os olhos e fecho-os. Torno a abri-los.
Vejo-o ao meu lado às duas e trinta e cinco de uma quarta-feira, cinco anos de
sua internação. Mal sei o que se transcorreu, apenas noto minha indiferença com
o tempo: as olheiras transtornadas, as rugas a contornar-me... e como se já
esperasse por esse momento entrego-lhe a pequena semente que outrora regrava
minha existência. Levanto-me e saio daquele café. Não chovia como antes. E
somente agora caminhando por estas calçadas e vitrines indistintas noto a
presença de minha bengala, meu óculos, e a sombrinha entreaberta. E, de
repente, o chocalhar das lágrimas.