sexta-feira, 28 de abril de 2017

Na odisseia de uma aurora intrínseca

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Tudo é efêmero. Tudo se muda com uma frequência inexorável. O mundo é aceito por sua fundamental e unânime personalidade de compor-se e recompor-se, ora grave, ora agudo. Uma extraordinária explosão de caracteres em simples partículas amontoados entre si, constituída a imagem de uma matéria peculiar, a qual se serve de uma indumentária sarcástica e munda. Os ventos partem com a irritabilidade da espera, de quedar-se densos em uma cadeira pífia, à qual se assenta à espera da grande atração inconveniente e antipontual, lendo ao jornal embriagado por notícias corriqueiras e acidentais, que permitem ao usuário ali esquecido o último gole incrédulo de seu prazer inexequível e bárbaro. Tudo calado, o relógio a quebrar o espanto das coisas – grita em som ameaçador que interrompe os sentimentos humanos cravados no âmago dos novos personagens desse novo dia impermeável e sombrio. As lágrimas são expostas pelas noites mal dormidas, pelo desencontro forçado pelo destino, pela guerra deixada inacabada e trincada por motivos adversos.

Ouço o falar comigo de uma mulata cearense que decidida a mudar-se de vida abriu-se às portas da grande metrópoles para seu descanso inundado de perspectivas. Porém, era uma jovem irracional e decorativa desse sistema emergente e grotesco. Não consegui escutar o que dizia, pois minha audição permitiu-me à visão, a reconhecê-la por sua imensurável estrutura espiritual – do que se compõe essa bela moça, o que há por trás desse ultraje educado?

Ouço-a novamente tentar captar minha atenção à sua propaganda enganosa, a de uma sociedade capitalista universal. Já desistindo de mim, respondo-a confusa – onde estou? Como e por que vim parar neste lugar?:

– Desculpe-me... Desculpe minha indelicadeza...

E como já ensaiada e redecorada sua frase quase indutora ao referir-se ao cardápio, pergunta-me com uma expressão chocada:

– A senhora já decidiu o que irá pedir?

Como por impulso, pedi-lhe uma xícara de chá e biscoitos para acompanhá-lo.

Lá fora a chuva cai se colocando contra a janela, à minha direita vejo-a em seu desespero ao ser lançada para o chão como demônios subjugados, em um ciclo preciso e ininterrupto. Tento esconder minha obcecada tentação em ir lá fora sentir a fúria da natureza, dedicada à humanidade inescrupulosa e valetudinária – rasgar as mangas e o colarinho bem engomado, a sentir com a incapacidade corruptiva a dor que ela carrega em seu antebraço petrificado, doído de remorso, de uma angústia lapidada em seu intrínseco. O que me mantém aqui, ainda, é a Espera fragmentada, a memória introspectiva e absoluta: o chá por qual meu inconsciente tomara fala.

Sou a metáfora esquecida, que serve apenas para forrar as lembranças arcaicas e codificadas, as quais não tenho acesso imediato, mas acredito que esteja em alguma parte inédita e irreconhecível – o desastre dos muros que permeiam a liberdade de reconstituir-se aos anseios da vida, reunir-se como um exército desbravador nos poros que reluzem ao destino cambaleado e destrutivo de cada passo que damos, as marcas que geram as cicatrizes inconsoláveis. A superfície do ser humano é impenetrável, de campos desgastados por intrigas não correspondidas – um deserto tempestivo que sufoca a humanidade, viola os correlacionados, embora resseque a desunião. É uma fraqueza mobiliada.

Ao tomar conta da realidade, vejo que já se passaram meia hora e o chá esfriara. Contento-me em uni-lo ao meu desespero sombrio, minha indignação ferida. Meus lábios tremem à medida que vejo o chá tomar vida em mim, sinto-me como em uma transição entre as teias movediças de uma aranha engenhosa e a fusão iconoclasta de uma essência perdida. Os prazeres são criaturas vindas de um mundo estranho aptos a nos atemorizar, quando não nos engolem, famintos. Tenho a sensação de que envelheci dez anos neste lugar, que fora carregada pelo tempo até chegar aqui... aqui onde me vejo completamente difundida... em uma união desordenada da matéria, agora ainda mais inquieta, sensibilizada.
Abro o pequeno bolso e retiro uma semilha em que o tempo cravou sua face.

Às vezes, um segredo é, em comunhão à liberdade, um traço confundível entre um rabisco e um engenhoso monólito em ruínas, cravado no rascunho de um abismo, este a amolgadura de um vaso adubado e fecundo. Um segredo é a arma que corrói no âmago da azáfama de uma amálgama aturdida, ancorada aos efeitos nocivos e perdulários de sua constituição íngreme. E este segredo se revela quando o sol, cavalheiresco e medieval, abre suas asas para encontrar-se brevemente com a lua, recém-liberta do ventre da escuridão. Ambos se fitam, logo se vão. Acrescem-se aos seus destinos inconciliáveis, às tormentas solidificadas, aos espaços irretratáveis e sucumbidos. Às chegadas misteriosas e às esperas canceladas. Até que o último brilho ofusque ojerizo.

Saem trechos desconexos de minha memória, bordando-se com o vago e o impreciso e diz-me que a glória se traja crua e diabólica, se enriquece do que é frágil no sistema imune ao que o é aviltante. A cada curvatura, a cada passo deixado impresso na calçada, a cada pensamento atirado contra uma multidão como se aquele fosse um terrorista compenetrado na massa periódica, se desabrocha como se, em uníssono, o tempo e o destino se colidissem. E cravassem na garganta de todos os envoltos o ressecado caco destruído, como na maldição as trevas recorrem ao preço absurdo da permutação. Somos fragmentos reorganizados à existência exigida por uma estrutura intransponível.

Ora, o som é inconsciente. Bate. Foge. Grita. Enlouquece. Delira. Volta. Bate. Some. Reúne montanhas e desaba. Nasce. Chora. Cresce. Reproduz. Envelhece e é decomposto em si mesmo, intocável e despercebido. Novamente nasce, chora, cresce, reproduz... torna-se estagiário nesse ciclo insólito e travesso, quando, de repente, às margens do mar, as ondas o atrai e devora.

Via-o naquela cama de hospital, ao anotar em seu prontuário seu contínuo regresso, assim também, as cicatrizes a se fecharem como se me dissessem que ele atingiria seu ápice terminal e galoparia de volta à vida como se o tempo o gestasse e por lei da natureza deveria dormir em seu ventre. Era um viajante nas próprias entranhas.
Vinha curvo sob o próprio tronco eriçado naquele deserto miserável, sem pena das pobres almas que ali se juntavam para a travessia misteriosa e emblemática. O sol cursava sua rota, porém inquieto como se pusesse na chama da tarde seu anseio pelas noites calmas, que da terra vermelha e cansada de tanto se abater entre os vãos roliços da ternura brotasse a esperança, que retornasse ao eixo o destino furtado pelo arrombo do tempo, pelo desprezo da natureza, que havia meses castigava aquele pedaço de vida inerte, submisso ao imponderável, à iníqua espera.

Suas pernas fortes varriam as pedras, as folhas secas caídas sobre a grama mordida pela sede, corrigia sua postura e seguia em frente. A vila escondida atrás das montanhas pesadas estava gasta, culpadas pelo remoto traço desfeito. As calçadas vestidas de luto e, em seus círculos fugazes gritavam alvoroçadas para o horizonte, único lugar onde ainda se viam a luz, com os estilhaços agarrados na face da garganta. As portas entreabriam-se em um vaivém ruidoso. Nas ruínas da vila se podia compor a angústia com que o tempo devorou o espaço marginalizado ao ressoo das guerras travadas pelo domínio do campo, judiado pelas traiçoeiras mãos carregadas de munições. As velhas telhas de madeira reduzida à pó se transformaram em ninhos de pombos; as faixadas das casas, de abrigos para as cobras e lagartos; e, o chão frio da esquecida vila malfeita pela dor com que o destino pincelou em seu tocante olhar fúnebre, serviam de pousadas aos viajantes, que cansados e entrecortados pela noite se apaziguavam com o triste semblante do local. Ali caíam moles e entregues aos braços selvagens daquela natureza incrível, nunca abusada pelas mãos excitadas dos homens ambiciosos a explorar a virgem sombria.

O viajante não parecia estar surpreso ao adentrar àquele turbilhão de sentimentos faiscantes, joviais e ininterruptos. Não tinha pressa, contemplava a inexorável afabilidade decaída. Dirigia-se sôfrego, vivo, como se buscasse algo que ali teria perdido com a travessia dolorosa e indubitável. Tardava e o jovem retornava escondendo-se dentro de um capuz mergulhado sob à noite lacrimosa, cavalgando seu belo cavalo veloz, que logo desapareceria no horizonte – onde se viam a luz.

Escorregou-se, frustrado levantou-se. Avistou uma casa, que o deixou trêmulo. A espiava pela janela o estado que a deixaram: as telhas de aranha já cobriam grande parte dos móveis, a fogueira estava morta, o sofá recoberto de cupins, a chaleira ainda na mesa como a deixaram no instante de azáfama, o descuido com o velho vaso de margarida havia feito a flor murchar, o tapete feito de rendas estava submerso à poeira que ali também buscou abrigo, o fogão de barro desaparecido entre os caibros soltos do teto... seus olhos se assombraram... na cadeira... Olhe! A camisa verde!

Ao entrar na casa era acompanhado pelo ranger das tábuas em que pisava, seus olhos antes brilhosos, agora negros e afastados.

O vento com sua fúria atravessava as grelhas enrugadas do velho casebre e iam morrer, surpreso, na boca do homem parado ao lado da fogueira recém-acesa, aquele que, aos poucos, regressava ao início das transformações. Olhava a brasa queimar-se. Ouvia o sangue nas veias fechada, impedido de chegar ao seu destino, de acender a vida em todo seu corpo exaurido. Sua dor era escorregadia às mãos quais a tentasse capturá-la.

Sinto-o.

Vejo seu rosto geométrico, suas curvas corporais conservadas, suas mãos finas de alvoroço, sua simplicidade pura e fascinante, seus olhos filtrados pelos óculos de um aro gasto pela rotina. Sua imagem torta debruçada nas cordas bambas de minha imagi... abro os olhos e fecho-os. Torno a abri-los. Vejo-o ao meu lado às duas e trinta e cinco de uma quarta-feira, cinco anos de sua internação. Mal sei o que se transcorreu, apenas noto minha indiferença com o tempo: as olheiras transtornadas, as rugas a contornar-me... e como se já esperasse por esse momento entrego-lhe a pequena semente que outrora regrava minha existência. Levanto-me e saio daquele café. Não chovia como antes. E somente agora caminhando por estas calçadas e vitrines indistintas noto a presença de minha bengala, meu óculos, e a sombrinha entreaberta. E, de repente, o chocalhar das lágrimas.

O defunto mistério

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Deito-me na grama para olhar o céu, ponho-me a observar os pássaros, que vão dos mais cultos e ortodoxos dos sabiapocas, andorinhas e curiós aos mais impetuosos e ostentadores dos araras e papagaios. Formam-se ali uma figura extravagante. Relembro meu passado, dedico meu futuro, rogo meu presente. Mas será que há uma ponte entre o passado, o presente e o futuro?

Hoje acordo pensando em desfrutar de meu paradisíaco aluvião onde moram-se cidadãos repletos de bom senso, localizado no norte brasileiro em Rondônia, um Estado quimérico, um gigante que retira de seu suor os traços da eternidade, e iconoclasta, às margens da luta, incorpora-se em nosso alazão.

Esse fato que aqui paro para narrar, aconteceu a três anos atrás. Antes de tudo acontecer, já ouvia tanto: “Dizem que naquela cidadezinha menosprezada há um defunto que atordoa toda a civilização, um Gasparzinho, Scooby Doo mistérios SA.” Nunca pensei que um dia fosse fazer parte de uma dessas histórias que mamãe sempre contava para mim.

Acabamos de jantar e fomos todos para cama.

Lembro-me exatamente como tudo aconteceu. No domingo à noite estava andando perdido por minha cidade tão pequena, quando avistei do nada uma luz ofuscante, imediatamente fui saber o que era. Quando lá cheguei, vi escrito na fachada “Cafezinhos deliciosos de D. Coruja”. Entrei e vi um banco desocupado, ao lado havia um homem calado com um copo de café na mão parecendo a Estátua da Liberdade, lendo um jornal velho. Eu confesso, esse gesto perverso que abarcava a feição do homem quedo, exaurido deixava-me mais interessado pela história.

Para não assustá-lo cheguei cauteloso.

Aproximei-me do balcão onde se encontrava o garçom e pedi-lhe uma bebida, claro, um café:

– Por favor sirva-me um cafezinho... na verdade dois, pois acho que o dele acabou!

Quando sentei ao lado daquele homem pálido que fixavam seus olhos aflitos em mim percebi logo que havia algo de estranho nele, um vazio imensurável, incalculável, lapidado em seu âmago congelado.

Dei iniciativa perguntando por seu nome:

– Como chama-se? Perguntei.

– João Emydio – Respondeu-me numa voz tímida que talvez demonstrasse seu arcaico sofrimento – Mas, pode chamar-me de defunto que já morreu – Prosseguiu dizendo com aquela voz rouca e trêmula.

Quando disse isto, todos ao nosso arredor aterrorizaram-se e temeram o súbito defunto à solta, mas este, meu caro leitor, era diferente, inofensivo, lhe garanto! Mas, misterioso, indesvendável.

Eu já esperava ouvir algo de surpreendente, por isso não me assustei. O que antes ali houvera um turbilhão de pessoas revoluteando e embaraçando aquele lugar só restaram a mim, e claro, ao incrédulo garçom, que tentava loucamente amenizar a saída alvoroçada e exagerada dos fregueses com superofertas, ou até mesmo interditando-os para os fazer pagar a conta.

– Por que todas aquelas pessoas foram embora? Será por medo? Ele não me parece ofensivo. Se assim, ele não me poderá fazer mal, além do mais, é um defunto. Mas, afinal, ele me parece tão vivo!

Depois que todo o pandemônio havia acabado, fiz-lhe uma pergunta amena:

– Onde você mora?

Ele me lançou um olhar descontraído e, logo, soltou seu esboçado sorriso.

– Sua pergunta parece-me retórica, não está a procura por uma resposta.

Então, parti ao ataque. Fiz-lhe a pergunta ameaçadora, a qual tanto se contorcia em meu dorso:

– Por que está tão triste? Vejo que algo lhe incomoda desde que ao seu lado sentei.

Novamente ele lançou aquele olhar me deixando na expectativa. De repente, ele se levantou, pousou sua mão suave e fria em meu ombro agradecendo pelo café e já andando soltou outro sorriso, mas este era mais estendido e deixando cair de seu terno preto desgastado pelo tempo um papel sujo com algo escrito dentro. Parece-me que fez isto de propósito.

Levantei-me e andei até onde o bilhete descansava-se de bruços, apanhei-o. Lá se estava escrito:

“Te conheço tanto!
… Pois sou teu avô.”

Após ter lido o bilhete deixado, tudo ao meu lado pareceu mentira. Senti tão rápido meu coração pulsar. Ouvi o tilintar que não sei se de tristeza, felicidade ou surpresa do cair de minha lágrima. 

– Por que será não reconheci este nome “João Emydio”?

Acordo com o grito desesperado do relógio. Olho: seis horas em ponto. Ao lembrar a noite passada, deixo-me cair um sorriso, pois conheci o defunto mistério.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Óculos caídos

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Amanhece na pequena Vila da Alforria. Os comércios são abertos pelos comerciantes já de pé à concorrência, a vender e comercializar seus produtos com os fregueses dispostos a gastar com muitas quinquilharias do armazém, desprezadas por antigos donos, mas aperfeiçoadas pelo tempo que tornou-as relíquias com um feitio puramente extraordinário. Possuídas por uma beleza única que intrigava os olhos dos compradores que ali passavam a busca de um presente de última hora, ao último prazo.

Ao domingo de friagem, todos saíam à rua na sua melhor vestimenta: os mulatos, os velhacos e ex-escravos encasacados, de meia longa e sapatos quentinhos, calça grossa; as mulatas, enternecidas, usavam cachecóis enrolados ao pescoço e sapatinhos simples bem forrados por dentro. Contemplavam o fino raio de sol que incendiava a vila com o abrir perfumado das rosas campestres rangendo inexequível doçura na aurora do dia.

Os mulatos que ali reinavam sua liberdade, nas escadarias sujas e acabadas da simples vila ultrapassada, relembravam histórias da pátria, as danças que os salvaram da fornalha e do pungir dos chicotes que lhes ardiam cerrando as costas embebidas pelo cansaço da longa jornada de trabalho nos aluviões de canaviais possessos esperando serem ceifados com o dote surpreso, angustiado e fatigado de suspiros densos acompanhados pelo descer suave e aniquilante do suor pelas grelhas surdas, enrugadas, encardidas dos corpos nus dos negros escravos.

Lá estava, o velhinho, segurado pelo pau de bambu com alguns adornos que o trazia certa contemplação por quem corresse os olhos por sua estatura muda, simples, gasta pelo tempo e pela vaidade na vida de escravo nas grandes caldeiras efervescentes de preparo da cana: o chapéu de palha esfiapado, o cordão envolto no pescoço abraçando uma pequena pedra circular, a camisa apesar dos remendos carregava seu cansaço e sua tortura, uma voz mansa quase em trégua com os ecos dos soluços calorosos escondidos atrás do peito, e, o mais tocante, o mais misterioso de sua expressão corpórea, a que talvez carregasse o mais fardo de sua história, a ponte que ligasse seu presente ao seu passado. Inviolavelmente justaposto ao seu rosto cicatrizado evidenciando seus olhos escondidos por tanto tempo nas trevas (as margens da rédea e do conflito), seu Óculos! Seu Óculos! Óculos de uma visão enxuta, a preciosidade de sua essência, seu robusto, um amuleto seu.

Vi-o no palacete improvisado à beira da calçada da vila a discursar para um pequeno grupo de ouvintes, um público curioso, atiçado pelas palavras dedicadas pelo velhaco. Todos o ouviam fascinados ininterruptamente sem quaisquer contrariedade, como ternos discípulos.

De repente, a rua toda tornou-se um pandemônio, ouvia-se gritos, gemidos, tiros, vozes que suplicavam. Às pressas todos se escondiam, era a tropa do governo. Em instantes a vila presenciou um massacre.

Ao acabar a confusão, entrei na casa do velhaco.

Encontrei-o estirado sobre a cama recoberta por seu sangue, como se deleitasse em sua própria pureza, as mãos encontravam-se amarradas cruelmente, judiadas por impaciência antecipando injustamente seu julgamento. As cicatrizes no instante que as vi, sobressaiu-me, parecia-me mais evidentes do que dantes. No chão, recaia-se sobre o tapete o sangue que dobrava de direção até chegar à algo que trouxe-me certo incômodo e fez-me descer as lágrimas de incúria, penalidade que me surpreendiam aos passos lentos até seu encontro torturante. Agachei-me, fiquei trêmulo, inseguro de mim agarrei-o. Os Óculos! Encontravam-se desarmados, inquietos, exauridos sobre a pena e o papel manchados com a rudeza ao esparramar do sangue por todo o quarto abafado e mal iluminado naquela tarde mal posta por injúria. Óculos que agora restavam os pedaços revirados que tentava encaixá-los na incredulidade de minha visão. Estavam quebrados, caídos sobre um ponto de interrogação. O papel, a pena e os Óculos transpareciam-me unidos com algum propósito, talvez em justificativa da interrogação. No papel redigido a mão resumia em tais palavras seu discurso interrompido:

“A dor é um manifesto de sentimentos que perfuram certos membros do corpo. A dor persistirá, porque a guerra continuará incrédula ignorando tudo e a todos, julgando nossa retificação. O consolo não é ter liberdade nem ter a carta de alforria, mas consentir-se sobre o respeito ao próximo. A barbare, por sua vez, é universal símbolo da democracia do medo, medo não de perder o posto nem a vitória, mas de ser governado, estar sujeitado, ser violado. As raízes que constroem a índole são metamorfoseadas pela dignidade, a compreensão. Os laços serão mantidos quando dispormo-nos em seu introito a riqueza de tê-los gratificantes, fundidos, divulgados com assiduidade. A morte é regular às atitudes que tornam as ações drásticas, desafiadoras e descarregadas de uma justificativa coesa. Muitas vidas foram caladas reciprocamente pelas armas de fogo e ainda não justificam o cessar, pois a (in)diferença é capaz de continuar uma guerra. Sei que tentarão contra a minha, mas as palavras deixadas em escrito esperando alguém que as recebesse como tal fortuna, ou dialogadas com a precisa verossimilhança são as sementes que eu lançava reconhecendo meus últimos dias.”

Ofegante pus o papel e os destroços que restavam do Óculos em um pano umedecido de sangue, guardei-o no bolso da calça e saí do quarto sem os sentidos do corpo, saltei a escadaria como se saltasse um abismo, penetrei a rua como penetrasse uma imensidão de canaviais revoltados contra minha presença, andava como se pisasse em espinhos. Logo a tarde acabava, o Sol se punha, uma fina chuva abria o chegar da noite fria, ríspida, impaciente, inquieta com a omissão. Ao olhar do sofá o fogo o poder da expressividade daquele velho, o seu semblante (Ah! Que semblante!) me vêm à memória com tal força como se me fosse saltar da cabeça e sumir pela janela mordendo os ombros de quem se metesse em seu caminho, envenenando-os com a plausível sinceridade, a angústia por ter errado, por ter sido eu, em ordem do barão, tê-lo matado.

O Reencontro de Lima

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Atirado ao mar de questiúnculas que ancoraram sobre a superfície de minha mente busquei em negativas transcorrer nas ondas da vaidade e da miséria.

Talvez estive tão perto em descobrir as respostas às perguntas que me efervesceram as veias como a adrenalina corroeu as hemoglobinas de meu sangue. Ouvi dizer um camponês descuidado, desarrumado, corpo mal vestido que trouxe consigo no embolo de tralhas dependurado nas costas seu único gozo, uma bagagem constituída de algumas poucas peças de roupas, um chinelo gasto, um par de sapato dessolado, meias de frio, uma carteira velha feita de couro legítimo e alguns trocos ganhos nas plantações de café dos grandes senhores, senhores aqueles que dominavam a política como domavam seus cavalos:

– A compreensão total do mundo é a chegada ao seu fim! disse ele consigo murmurando como se culpasse por seu desfalecimento.

Por instantes o observei. Vi-o entrar no botequim e pedir água-ardente. Senti o desejo estapear-me o rosto, arrancar-me da carne tal estrume. Vi-me em êxtase, logo percebi estar ao lado daquele homem visionário, bebendo do seu suor às margens de uma mesa desgrenhada onde há pouco bradaram homens eufóricos engolidos pela chama do prazer do álcool.

O lugar julguei-o simples, mal arejado, o garçom era rotineiro, as paredes manchadas por pinceladas fortes de tinta como se outrora teria sido um armazém da refinaria de café ao lado, copos quebrados e bancos revirados ao chão que celebraram há instantes a discórdia entre dois homens que disputaram a última garrafa da mesa. O que me chamou a atenção não foi o garçom nem o estado fúnebre do botequim, mas o personagem esboçado ao meu lado, aquele por quem ali entrei a estudá-lo. A princípio me opus àquela figura indagável pairada sob meu incômodo como se tornasse ao copo o último gole que esperou-me tenso e rancoroso para engoli-lo.

Seu contraste era marcante: olhos que saltavam da cara, nariz pontiagudo, rosto ondulado, cabelos negros e engomados. Homem meio curvo, pernas e braços finos, as mãos estiveram enroladas em um pano a fim de aliviar a dor registrada em seu punho pela longa jornada de colheita nos cafezais.

Olhei-o sem pressa. Apreciei-o como ao apreciar um quadro exposto num museu sem coragem de extorquir qualquer palavra de mim. Deixei-o fluir. As minhas pernas bambearam quando o escutei gemer, outra vez, e novamente. Vi-o sorrir, ainda que naquele balcão desgastado, talvez o último brilho que o vi incendiar os olhos. Os braços como se saltassem inquietos a procura de acalmar o delírio que da alma derramou infinitamente secando qualquer força que resistisse ao encontro mais sólido entre a razão e a compaixão que estiveram impressas em sua feição arranhada, escondida e atropelada.

Dele sobressaiu-me tal riqueza jamais vista e jamais entendida por este intelecto astuto, por estes olhos nus e ainda virgens, olhos que aspiram a guerra, a dor, a angústia, o sofrimento, a inveja, ao mesmo tempo, defende a soberania do amor, da felicidade, da harmonia; olhos que percebem não mais que o regresso da humanidade.

De repente, o copo caiu partindo-se em cacos e desgovernando a mim e a ele que, compôs-se logo e intimado pelo horário decidiu ir-se. Eu continuei ali, estacionado como um trem que se pousa cansado depois de sua última e longa viagem. Não o segui, mas meus olhos seguiram-no, tontos.

Sua inclinação pôs-me ao choque. Dentre a confusão, colidiram-me com as feridas do homem sua miséria tapada pelo tempo e os destroços que surgiram mansos e que iam tomando espaço nas mentes mais secas nas mais vagas terapias perversas. Forçou-me, o entusiasmo, a declará-lo guerreiro, a pô-lo mestre, não a decifrá-lo nem, ao menos, a condená-lo.

Tanto me repreendi que me pus ao cabo do suposto perdido. Encontrei-o deserto, não menos exausto.

Esteve-se sentado à beira do lago, ao lado do limoeiro que se despiu das próprias flores ao lançá-las sobre a figura marcada sobre a areia enxuta abraçada ao corpo suado do homem calado, tristonho da fonte. Homem banhado pelas lágrimas de Lima. Homem escavado pelas ventanas do destino.

Aproximei-me. Sentei-me ao seu lado como dantes, no botequim, e, imerso na sede de perguntar-lhe enfim de sua audácia profunda, regredi-me na fala, que se congestionou dentro de mim estourando os poros da pele como se procurasse nos cantos os lados por onde sair. Em sua presença sequei-me a garganta, fiquei rouco, engasguei as palavras, patinou-me goela a dentro os adjuntos.

Sua imagem fez-me a infância erguer-se de repente ao balanço das recordações. Não sei, não me lembro bem! Vi-me pequeno saltar-me ali, subir-me ali, naquele lugar estranho-belo. Escutei uma voz grunhir ao longe do limoeiro dizendo-me: Isso é limão-doce, aquele quem traz seu nome escrito nas folhas da alma, Lima.

– As respostas castigam e ardem, meu caro Lima? Indagou-me o velho de coração partido ao olhar-me sem recuo.

Não reproduzi alguma reação. Não tive as forças que me impulsionassem o desejo febril de atirar-me loucamente aos braços de meu velho, do velho que me resgatou os instantes perdidos. Mas ele, sem imposições atirou-se abraçando-me fortemente como se concentrasse toda sua força ali, naquele momento que rasgou todas a leis que impusessem à omissão do fato.

O misterioso velho de sombrinha preta

Autor: Matheus Ernandes  Monteiro de Moraes

Em um lindo pomar se criam expectativas para uma vida de gozo; porém, são tantas as controvérsias que a tornam artificial, somente soldada na superfície da imaginação.

Ela começa no processo de fecundidade, o encontro de X e Y que dá origem à pensamentos que se convergem rebuçado por ingenuidade, mas o que poucos sabem é que necessitam apenas do querer óbvio.

Ora basta, ora pede por mais, e o que falta é a transcendência entre o corpo e a alma, ou talvez seja algo que o faça ver a luz como um alfinete.

São muitos os desafortunados na vida, ou diria, insatisfeitos por serem exigentes, que por não a cultuar e saborear em suas possíveis inundações de prazeres e riquezas se tornam eternamente amargos.

Outros são ortodoxos, seguem rigidamente a doutrina realista – a da própria realidade – e estranhariam este mundo. Mas são meros reformistas, "pode até não parecer, mas são gente quase igual a gente", tem lá suas proezas! Estes chegam a encher o peito, estampando-o de orgulho como se soubesse o verdadeiro significado da palavra felicidade. Usa-a como neologismo amolgado, irrisório. É o pungente de um ser arduamente hipócrita.

Há ainda os que se extravasam, os riquíssimos em egocentrismo, os autocentrados, encontra-se o poeta escondido do mundo de fora escrevendo seu próprio destino, tendo como base as belas palavras de um ungido, decifrada uma nova significância a cada pôr de sol: a felicidade é a loucura nata, e nata se torna loucura quando feliz. 

De loucura se deve à ela, caro leitor, pois a vida não lhe abana, ao menos, leva-lhe café na cama!

E este velho serve-me de melhor adágio.

Procurava por refúgio nas entranhas daquela mata inexplorada em tempos de guerreiros, uma nova história de brasa ardente. Sentia-se como português na América, ao chegar em terras desconhecidas impondo tradições, leis, costumes e acautelando qualquer ignorância. Assim como o português, fizera-se intruso manso, de espírito, sentia-se acolhido, ao mesmo tempo intimidado pela graciosa riqueza desta terra calma e de fertilidade esplêndida. O mar deixava-o calmo e límpido, porém o pensamento carregava uma tristeza farda: o desejo que ficava lá do outro lado do Ocidente.

Ele talvez não seja um português na América e sim a própria América em si, dono de um cerne de belezas antes nunca desvendadas. Sabiá que voa distâncias a busca de uma palmeira.

Estava ele, como sempre, com aquela sombrinha escura. Cruzava rapidamente as engenhosas ruas e calçadas que se estendiam em longos traços e rabiscos, sem se preocupar com a multidão que o embaraçava, e com destino incerto sentia-se com o fôlego curto.

Observo seu semblante, homem de cor clara, olhos verdes, cabelos brancos, as rugas nas profundezas de sua face demonstravam sua mal dotada vida feita de amargos, aparentava-me uns oitenta e sete anos, sobrancelha raspada, marcas que a o deixou, tinha um olhar triste sobre as coisas que entrevia, magro esquelético.

Era um homem quedo, taciturno, quase não conversava e mal cumprimentava seus vizinhos, ou pouco os tinha. Sempre estava vestido com aquela camiseta branca feita de lã e uma calça cinza e o acompanhava uma sacola e uma sombrinha preta, a qual mais usava como bengala. Morava em uma casinhola no litoral, escondida atrás dos canaviais que produzira em seu quintal.

Naquele exato momento que o vi algo me fez pensar na vida. Ele não era feito de atonia, era desbravadoramente perseverante em buscar o que havia de mais incólume em si: sua felicidade. E, a vida ainda não o tinha recompensado por cultuá-la, o que o deixou foi uma acabada mercearia, onde trabalhava solitariamente como artesão, sem filhos para ensinar-lhe o mesteres. 

Muitos achariam que estou falando de um carpinteiro maluco, mas este não era um simples carpinteiro maluco, era velho também, dono de um segredo que excita meu paladar, às vezes incompreensível, era um aventureiro em alto mar. Tentava na vida seu gozo.

Ele não perfiava por um futuro apenas, bastava-lhe o presente, porque estava velho demais para navegar explorando mares de incertezas, mas cobria-se de esperanças.

Este velho é cobiçado em minha narração e por ser indiferente causa-me grande regozijo em contá-lo; suas intrínsecas sensações que lhe causava espanto, por nunca haver sentido algo tão intenso que o tornasse na alma trêmulo, inspirou um dia os seguintes versos poéticos:

– Dentro do amor que se faz a emoção / É uma engrenagem louca este meu coração!

Como se bastasse apenas um assobio para que pudéssemos compreender completamente a realidade que tanto nos rodeia. Ela é uma nau de escrúpulos que vaga por aí destemida pelos mares do destino, sem sabermos ao certo o que carrega novamente de pífio.

Hoje o dia amanheceu nublado e logo começou a chover no litoral, aos poucos o céu era coberto pela poeira acinzentada – há tempo que não chovia por ali.

Após a chuva cessar, o céu se abrir despojado de um enigma, e os pássaros porem-se a cantar, o homem saiu de seu aconchego, saudoso, pôs-se a contemplar a formidável sensação de estar ali pisando naquela terra molhada e ouvir as últimas gotículas rufar o latão que desciam entre os vãos escorregadiços do telhado de madeira.

De longe, ao caminhar pelas areias da praia avistou uma aparente miragem – algo realmente acontecia – via um menino que há pouco entrara no mar e agora lutava contra as ondas para se salvar.

O velho que nunca tivera a oportunidade nem se quer de ler um manual de salva-vidas via sua única chance ali à sua frente, inesperada e ilibada, de viver a tão sonhada experiência.

Vendo o menino que se sufocava naquela imensidão formada por águas, banhadas pelo oceano, com sua essência saltou-se por impulso ao mar, obrigando calar o seu medo das terríveis águas oceânicas.

Mas, como tudo na vida há seu preço, para salvá-lo teve que ceifar sua própria vida.