sexta-feira, 28 de abril de 2017

Na odisseia de uma aurora intrínseca

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Tudo é efêmero. Tudo se muda com uma frequência inexorável. O mundo é aceito por sua fundamental e unânime personalidade de compor-se e recompor-se, ora grave, ora agudo. Uma extraordinária explosão de caracteres em simples partículas amontoados entre si, constituída a imagem de uma matéria peculiar, a qual se serve de uma indumentária sarcástica e munda. Os ventos partem com a irritabilidade da espera, de quedar-se densos em uma cadeira pífia, à qual se assenta à espera da grande atração inconveniente e antipontual, lendo ao jornal embriagado por notícias corriqueiras e acidentais, que permitem ao usuário ali esquecido o último gole incrédulo de seu prazer inexequível e bárbaro. Tudo calado, o relógio a quebrar o espanto das coisas – grita em som ameaçador que interrompe os sentimentos humanos cravados no âmago dos novos personagens desse novo dia impermeável e sombrio. As lágrimas são expostas pelas noites mal dormidas, pelo desencontro forçado pelo destino, pela guerra deixada inacabada e trincada por motivos adversos.

Ouço o falar comigo de uma mulata cearense que decidida a mudar-se de vida abriu-se às portas da grande metrópoles para seu descanso inundado de perspectivas. Porém, era uma jovem irracional e decorativa desse sistema emergente e grotesco. Não consegui escutar o que dizia, pois minha audição permitiu-me à visão, a reconhecê-la por sua imensurável estrutura espiritual – do que se compõe essa bela moça, o que há por trás desse ultraje educado?

Ouço-a novamente tentar captar minha atenção à sua propaganda enganosa, a de uma sociedade capitalista universal. Já desistindo de mim, respondo-a confusa – onde estou? Como e por que vim parar neste lugar?:

– Desculpe-me... Desculpe minha indelicadeza...

E como já ensaiada e redecorada sua frase quase indutora ao referir-se ao cardápio, pergunta-me com uma expressão chocada:

– A senhora já decidiu o que irá pedir?

Como por impulso, pedi-lhe uma xícara de chá e biscoitos para acompanhá-lo.

Lá fora a chuva cai se colocando contra a janela, à minha direita vejo-a em seu desespero ao ser lançada para o chão como demônios subjugados, em um ciclo preciso e ininterrupto. Tento esconder minha obcecada tentação em ir lá fora sentir a fúria da natureza, dedicada à humanidade inescrupulosa e valetudinária – rasgar as mangas e o colarinho bem engomado, a sentir com a incapacidade corruptiva a dor que ela carrega em seu antebraço petrificado, doído de remorso, de uma angústia lapidada em seu intrínseco. O que me mantém aqui, ainda, é a Espera fragmentada, a memória introspectiva e absoluta: o chá por qual meu inconsciente tomara fala.

Sou a metáfora esquecida, que serve apenas para forrar as lembranças arcaicas e codificadas, as quais não tenho acesso imediato, mas acredito que esteja em alguma parte inédita e irreconhecível – o desastre dos muros que permeiam a liberdade de reconstituir-se aos anseios da vida, reunir-se como um exército desbravador nos poros que reluzem ao destino cambaleado e destrutivo de cada passo que damos, as marcas que geram as cicatrizes inconsoláveis. A superfície do ser humano é impenetrável, de campos desgastados por intrigas não correspondidas – um deserto tempestivo que sufoca a humanidade, viola os correlacionados, embora resseque a desunião. É uma fraqueza mobiliada.

Ao tomar conta da realidade, vejo que já se passaram meia hora e o chá esfriara. Contento-me em uni-lo ao meu desespero sombrio, minha indignação ferida. Meus lábios tremem à medida que vejo o chá tomar vida em mim, sinto-me como em uma transição entre as teias movediças de uma aranha engenhosa e a fusão iconoclasta de uma essência perdida. Os prazeres são criaturas vindas de um mundo estranho aptos a nos atemorizar, quando não nos engolem, famintos. Tenho a sensação de que envelheci dez anos neste lugar, que fora carregada pelo tempo até chegar aqui... aqui onde me vejo completamente difundida... em uma união desordenada da matéria, agora ainda mais inquieta, sensibilizada.
Abro o pequeno bolso e retiro uma semilha em que o tempo cravou sua face.

Às vezes, um segredo é, em comunhão à liberdade, um traço confundível entre um rabisco e um engenhoso monólito em ruínas, cravado no rascunho de um abismo, este a amolgadura de um vaso adubado e fecundo. Um segredo é a arma que corrói no âmago da azáfama de uma amálgama aturdida, ancorada aos efeitos nocivos e perdulários de sua constituição íngreme. E este segredo se revela quando o sol, cavalheiresco e medieval, abre suas asas para encontrar-se brevemente com a lua, recém-liberta do ventre da escuridão. Ambos se fitam, logo se vão. Acrescem-se aos seus destinos inconciliáveis, às tormentas solidificadas, aos espaços irretratáveis e sucumbidos. Às chegadas misteriosas e às esperas canceladas. Até que o último brilho ofusque ojerizo.

Saem trechos desconexos de minha memória, bordando-se com o vago e o impreciso e diz-me que a glória se traja crua e diabólica, se enriquece do que é frágil no sistema imune ao que o é aviltante. A cada curvatura, a cada passo deixado impresso na calçada, a cada pensamento atirado contra uma multidão como se aquele fosse um terrorista compenetrado na massa periódica, se desabrocha como se, em uníssono, o tempo e o destino se colidissem. E cravassem na garganta de todos os envoltos o ressecado caco destruído, como na maldição as trevas recorrem ao preço absurdo da permutação. Somos fragmentos reorganizados à existência exigida por uma estrutura intransponível.

Ora, o som é inconsciente. Bate. Foge. Grita. Enlouquece. Delira. Volta. Bate. Some. Reúne montanhas e desaba. Nasce. Chora. Cresce. Reproduz. Envelhece e é decomposto em si mesmo, intocável e despercebido. Novamente nasce, chora, cresce, reproduz... torna-se estagiário nesse ciclo insólito e travesso, quando, de repente, às margens do mar, as ondas o atrai e devora.

Via-o naquela cama de hospital, ao anotar em seu prontuário seu contínuo regresso, assim também, as cicatrizes a se fecharem como se me dissessem que ele atingiria seu ápice terminal e galoparia de volta à vida como se o tempo o gestasse e por lei da natureza deveria dormir em seu ventre. Era um viajante nas próprias entranhas.
Vinha curvo sob o próprio tronco eriçado naquele deserto miserável, sem pena das pobres almas que ali se juntavam para a travessia misteriosa e emblemática. O sol cursava sua rota, porém inquieto como se pusesse na chama da tarde seu anseio pelas noites calmas, que da terra vermelha e cansada de tanto se abater entre os vãos roliços da ternura brotasse a esperança, que retornasse ao eixo o destino furtado pelo arrombo do tempo, pelo desprezo da natureza, que havia meses castigava aquele pedaço de vida inerte, submisso ao imponderável, à iníqua espera.

Suas pernas fortes varriam as pedras, as folhas secas caídas sobre a grama mordida pela sede, corrigia sua postura e seguia em frente. A vila escondida atrás das montanhas pesadas estava gasta, culpadas pelo remoto traço desfeito. As calçadas vestidas de luto e, em seus círculos fugazes gritavam alvoroçadas para o horizonte, único lugar onde ainda se viam a luz, com os estilhaços agarrados na face da garganta. As portas entreabriam-se em um vaivém ruidoso. Nas ruínas da vila se podia compor a angústia com que o tempo devorou o espaço marginalizado ao ressoo das guerras travadas pelo domínio do campo, judiado pelas traiçoeiras mãos carregadas de munições. As velhas telhas de madeira reduzida à pó se transformaram em ninhos de pombos; as faixadas das casas, de abrigos para as cobras e lagartos; e, o chão frio da esquecida vila malfeita pela dor com que o destino pincelou em seu tocante olhar fúnebre, serviam de pousadas aos viajantes, que cansados e entrecortados pela noite se apaziguavam com o triste semblante do local. Ali caíam moles e entregues aos braços selvagens daquela natureza incrível, nunca abusada pelas mãos excitadas dos homens ambiciosos a explorar a virgem sombria.

O viajante não parecia estar surpreso ao adentrar àquele turbilhão de sentimentos faiscantes, joviais e ininterruptos. Não tinha pressa, contemplava a inexorável afabilidade decaída. Dirigia-se sôfrego, vivo, como se buscasse algo que ali teria perdido com a travessia dolorosa e indubitável. Tardava e o jovem retornava escondendo-se dentro de um capuz mergulhado sob à noite lacrimosa, cavalgando seu belo cavalo veloz, que logo desapareceria no horizonte – onde se viam a luz.

Escorregou-se, frustrado levantou-se. Avistou uma casa, que o deixou trêmulo. A espiava pela janela o estado que a deixaram: as telhas de aranha já cobriam grande parte dos móveis, a fogueira estava morta, o sofá recoberto de cupins, a chaleira ainda na mesa como a deixaram no instante de azáfama, o descuido com o velho vaso de margarida havia feito a flor murchar, o tapete feito de rendas estava submerso à poeira que ali também buscou abrigo, o fogão de barro desaparecido entre os caibros soltos do teto... seus olhos se assombraram... na cadeira... Olhe! A camisa verde!

Ao entrar na casa era acompanhado pelo ranger das tábuas em que pisava, seus olhos antes brilhosos, agora negros e afastados.

O vento com sua fúria atravessava as grelhas enrugadas do velho casebre e iam morrer, surpreso, na boca do homem parado ao lado da fogueira recém-acesa, aquele que, aos poucos, regressava ao início das transformações. Olhava a brasa queimar-se. Ouvia o sangue nas veias fechada, impedido de chegar ao seu destino, de acender a vida em todo seu corpo exaurido. Sua dor era escorregadia às mãos quais a tentasse capturá-la.

Sinto-o.

Vejo seu rosto geométrico, suas curvas corporais conservadas, suas mãos finas de alvoroço, sua simplicidade pura e fascinante, seus olhos filtrados pelos óculos de um aro gasto pela rotina. Sua imagem torta debruçada nas cordas bambas de minha imagi... abro os olhos e fecho-os. Torno a abri-los. Vejo-o ao meu lado às duas e trinta e cinco de uma quarta-feira, cinco anos de sua internação. Mal sei o que se transcorreu, apenas noto minha indiferença com o tempo: as olheiras transtornadas, as rugas a contornar-me... e como se já esperasse por esse momento entrego-lhe a pequena semente que outrora regrava minha existência. Levanto-me e saio daquele café. Não chovia como antes. E somente agora caminhando por estas calçadas e vitrines indistintas noto a presença de minha bengala, meu óculos, e a sombrinha entreaberta. E, de repente, o chocalhar das lágrimas.

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