Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes
Deito-me na grama para olhar o céu, ponho-me a
observar os pássaros, que vão dos mais cultos e ortodoxos dos sabiapocas,
andorinhas e curiós aos mais impetuosos e ostentadores dos araras e papagaios.
Formam-se ali uma figura extravagante. Relembro meu passado, dedico meu futuro,
rogo meu presente. Mas será que há uma ponte entre o passado, o presente e o
futuro?
Hoje acordo pensando em desfrutar de meu
paradisíaco aluvião onde moram-se cidadãos repletos de bom senso, localizado no
norte brasileiro em Rondônia, um Estado quimérico, um gigante que retira de seu
suor os traços da eternidade, e iconoclasta, às margens da luta, incorpora-se
em nosso alazão.
Esse fato que aqui paro para narrar, aconteceu a
três anos atrás. Antes de tudo acontecer, já ouvia tanto: “Dizem que naquela
cidadezinha menosprezada há um defunto que atordoa toda a civilização, um
Gasparzinho, Scooby Doo mistérios SA.” Nunca pensei
que um dia fosse fazer parte de uma dessas histórias que mamãe sempre contava
para mim.
Acabamos de jantar e fomos todos para cama.
Lembro-me exatamente como tudo aconteceu. No
domingo à noite estava andando perdido por minha cidade tão pequena, quando
avistei do nada uma luz ofuscante, imediatamente fui saber o que era. Quando lá
cheguei, vi escrito na fachada “Cafezinhos deliciosos de D. Coruja”. Entrei e
vi um banco desocupado, ao lado havia um homem calado com um copo de café na
mão parecendo a Estátua da Liberdade, lendo um jornal velho. Eu confesso, esse
gesto perverso que abarcava a feição do homem quedo, exaurido deixava-me mais
interessado pela história.
Para não assustá-lo cheguei cauteloso.
Aproximei-me do balcão onde se encontrava o
garçom e pedi-lhe uma bebida, claro, um café:
– Por favor sirva-me um cafezinho... na verdade dois, pois
acho que o dele acabou!
Quando sentei ao lado daquele homem pálido que
fixavam seus olhos aflitos em mim percebi logo que havia algo de estranho nele,
um vazio imensurável, incalculável, lapidado em seu âmago congelado.
Dei iniciativa perguntando por seu nome:
– Como chama-se? Perguntei.
– João Emydio – Respondeu-me numa voz tímida que talvez
demonstrasse seu arcaico sofrimento – Mas, pode chamar-me de defunto que já
morreu – Prosseguiu dizendo com aquela voz rouca e trêmula.
Quando disse isto, todos ao nosso arredor
aterrorizaram-se e temeram o súbito defunto à solta, mas este, meu caro leitor,
era diferente, inofensivo, lhe garanto! Mas, misterioso, indesvendável.
Eu já esperava ouvir algo de surpreendente, por
isso não me assustei. O que antes ali houvera um
turbilhão de pessoas revoluteando e embaraçando aquele lugar só restaram a mim,
e claro, ao incrédulo garçom, que tentava loucamente amenizar a saída
alvoroçada e exagerada dos fregueses com superofertas, ou até mesmo
interditando-os para os fazer pagar a conta.
– Por que todas aquelas pessoas foram embora?
Será por medo? Ele não me parece ofensivo. Se assim, ele não me poderá fazer
mal, além do mais, é um defunto. Mas, afinal, ele me parece tão vivo!
Depois que todo o pandemônio havia acabado,
fiz-lhe uma pergunta amena:
– Onde você mora?
Ele me lançou um olhar descontraído e, logo,
soltou seu esboçado sorriso.
– Sua pergunta parece-me retórica, não está a
procura por uma resposta.
Então, parti ao ataque. Fiz-lhe a pergunta
ameaçadora, a qual tanto se contorcia em meu dorso:
– Por que está tão triste? Vejo que algo lhe
incomoda desde que ao seu lado sentei.
Novamente ele lançou aquele olhar me deixando na
expectativa. De repente, ele se levantou, pousou
sua mão suave e fria em meu ombro agradecendo pelo café e já andando soltou
outro sorriso, mas este era mais estendido e deixando cair de seu terno preto
desgastado pelo tempo um papel sujo com algo escrito dentro. Parece-me que fez
isto de propósito.
Levantei-me e andei até onde o bilhete
descansava-se de bruços, apanhei-o. Lá se estava escrito:
“Te conheço tanto!
… Pois sou teu avô.”
Após ter lido o bilhete deixado, tudo ao meu lado
pareceu mentira. Senti tão rápido meu coração
pulsar. Ouvi o tilintar que não sei se de tristeza, felicidade ou surpresa do
cair de minha lágrima.
– Por que será não reconheci este nome “João
Emydio”?
Acordo com o grito desesperado do relógio. Olho:
seis horas em ponto. Ao lembrar a noite passada, deixo-me cair um sorriso, pois
conheci o defunto mistério.
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