terça-feira, 25 de abril de 2017

O Reencontro de Lima

Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Atirado ao mar de questiúnculas que ancoraram sobre a superfície de minha mente busquei em negativas transcorrer nas ondas da vaidade e da miséria.

Talvez estive tão perto em descobrir as respostas às perguntas que me efervesceram as veias como a adrenalina corroeu as hemoglobinas de meu sangue. Ouvi dizer um camponês descuidado, desarrumado, corpo mal vestido que trouxe consigo no embolo de tralhas dependurado nas costas seu único gozo, uma bagagem constituída de algumas poucas peças de roupas, um chinelo gasto, um par de sapato dessolado, meias de frio, uma carteira velha feita de couro legítimo e alguns trocos ganhos nas plantações de café dos grandes senhores, senhores aqueles que dominavam a política como domavam seus cavalos:

– A compreensão total do mundo é a chegada ao seu fim! disse ele consigo murmurando como se culpasse por seu desfalecimento.

Por instantes o observei. Vi-o entrar no botequim e pedir água-ardente. Senti o desejo estapear-me o rosto, arrancar-me da carne tal estrume. Vi-me em êxtase, logo percebi estar ao lado daquele homem visionário, bebendo do seu suor às margens de uma mesa desgrenhada onde há pouco bradaram homens eufóricos engolidos pela chama do prazer do álcool.

O lugar julguei-o simples, mal arejado, o garçom era rotineiro, as paredes manchadas por pinceladas fortes de tinta como se outrora teria sido um armazém da refinaria de café ao lado, copos quebrados e bancos revirados ao chão que celebraram há instantes a discórdia entre dois homens que disputaram a última garrafa da mesa. O que me chamou a atenção não foi o garçom nem o estado fúnebre do botequim, mas o personagem esboçado ao meu lado, aquele por quem ali entrei a estudá-lo. A princípio me opus àquela figura indagável pairada sob meu incômodo como se tornasse ao copo o último gole que esperou-me tenso e rancoroso para engoli-lo.

Seu contraste era marcante: olhos que saltavam da cara, nariz pontiagudo, rosto ondulado, cabelos negros e engomados. Homem meio curvo, pernas e braços finos, as mãos estiveram enroladas em um pano a fim de aliviar a dor registrada em seu punho pela longa jornada de colheita nos cafezais.

Olhei-o sem pressa. Apreciei-o como ao apreciar um quadro exposto num museu sem coragem de extorquir qualquer palavra de mim. Deixei-o fluir. As minhas pernas bambearam quando o escutei gemer, outra vez, e novamente. Vi-o sorrir, ainda que naquele balcão desgastado, talvez o último brilho que o vi incendiar os olhos. Os braços como se saltassem inquietos a procura de acalmar o delírio que da alma derramou infinitamente secando qualquer força que resistisse ao encontro mais sólido entre a razão e a compaixão que estiveram impressas em sua feição arranhada, escondida e atropelada.

Dele sobressaiu-me tal riqueza jamais vista e jamais entendida por este intelecto astuto, por estes olhos nus e ainda virgens, olhos que aspiram a guerra, a dor, a angústia, o sofrimento, a inveja, ao mesmo tempo, defende a soberania do amor, da felicidade, da harmonia; olhos que percebem não mais que o regresso da humanidade.

De repente, o copo caiu partindo-se em cacos e desgovernando a mim e a ele que, compôs-se logo e intimado pelo horário decidiu ir-se. Eu continuei ali, estacionado como um trem que se pousa cansado depois de sua última e longa viagem. Não o segui, mas meus olhos seguiram-no, tontos.

Sua inclinação pôs-me ao choque. Dentre a confusão, colidiram-me com as feridas do homem sua miséria tapada pelo tempo e os destroços que surgiram mansos e que iam tomando espaço nas mentes mais secas nas mais vagas terapias perversas. Forçou-me, o entusiasmo, a declará-lo guerreiro, a pô-lo mestre, não a decifrá-lo nem, ao menos, a condená-lo.

Tanto me repreendi que me pus ao cabo do suposto perdido. Encontrei-o deserto, não menos exausto.

Esteve-se sentado à beira do lago, ao lado do limoeiro que se despiu das próprias flores ao lançá-las sobre a figura marcada sobre a areia enxuta abraçada ao corpo suado do homem calado, tristonho da fonte. Homem banhado pelas lágrimas de Lima. Homem escavado pelas ventanas do destino.

Aproximei-me. Sentei-me ao seu lado como dantes, no botequim, e, imerso na sede de perguntar-lhe enfim de sua audácia profunda, regredi-me na fala, que se congestionou dentro de mim estourando os poros da pele como se procurasse nos cantos os lados por onde sair. Em sua presença sequei-me a garganta, fiquei rouco, engasguei as palavras, patinou-me goela a dentro os adjuntos.

Sua imagem fez-me a infância erguer-se de repente ao balanço das recordações. Não sei, não me lembro bem! Vi-me pequeno saltar-me ali, subir-me ali, naquele lugar estranho-belo. Escutei uma voz grunhir ao longe do limoeiro dizendo-me: Isso é limão-doce, aquele quem traz seu nome escrito nas folhas da alma, Lima.

– As respostas castigam e ardem, meu caro Lima? Indagou-me o velho de coração partido ao olhar-me sem recuo.

Não reproduzi alguma reação. Não tive as forças que me impulsionassem o desejo febril de atirar-me loucamente aos braços de meu velho, do velho que me resgatou os instantes perdidos. Mas ele, sem imposições atirou-se abraçando-me fortemente como se concentrasse toda sua força ali, naquele momento que rasgou todas a leis que impusessem à omissão do fato.

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