Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes
Amanhece na pequena Vila da Alforria. Os comércios são abertos pelos comerciantes já de pé à concorrência, a vender e comercializar seus produtos com os fregueses dispostos a gastar com muitas quinquilharias do armazém, desprezadas por antigos donos, mas aperfeiçoadas pelo tempo que tornou-as relíquias com um feitio puramente extraordinário. Possuídas por uma beleza única que intrigava os olhos dos compradores que ali passavam a busca de um presente de última hora, ao último prazo.
Ao domingo de friagem, todos saíam à rua na sua melhor vestimenta: os mulatos, os velhacos e ex-escravos encasacados, de meia longa e sapatos quentinhos, calça grossa; as mulatas, enternecidas, usavam cachecóis enrolados ao pescoço e sapatinhos simples bem forrados por dentro. Contemplavam o fino raio de sol que incendiava a vila com o abrir perfumado das rosas campestres rangendo inexequível doçura na aurora do dia.
Os mulatos que ali reinavam sua liberdade, nas escadarias sujas e acabadas da simples vila ultrapassada, relembravam histórias da pátria, as danças que os salvaram da fornalha e do pungir dos chicotes que lhes ardiam cerrando as costas embebidas pelo cansaço da longa jornada de trabalho nos aluviões de canaviais possessos esperando serem ceifados com o dote surpreso, angustiado e fatigado de suspiros densos acompanhados pelo descer suave e aniquilante do suor pelas grelhas surdas, enrugadas, encardidas dos corpos nus dos negros escravos.
Lá estava, o velhinho, segurado pelo pau de bambu com alguns adornos que o trazia certa contemplação por quem corresse os olhos por sua estatura muda, simples, gasta pelo tempo e pela vaidade na vida de escravo nas grandes caldeiras efervescentes de preparo da cana: o chapéu de palha esfiapado, o cordão envolto no pescoço abraçando uma pequena pedra circular, a camisa apesar dos remendos carregava seu cansaço e sua tortura, uma voz mansa quase em trégua com os ecos dos soluços calorosos escondidos atrás do peito, e, o mais tocante, o mais misterioso de sua expressão corpórea, a que talvez carregasse o mais fardo de sua história, a ponte que ligasse seu presente ao seu passado. Inviolavelmente justaposto ao seu rosto cicatrizado evidenciando seus olhos escondidos por tanto tempo nas trevas (as margens da rédea e do conflito), seu Óculos! Seu Óculos! Óculos de uma visão enxuta, a preciosidade de sua essência, seu robusto, um amuleto seu.
Vi-o no palacete improvisado à beira da calçada da vila a discursar para um pequeno grupo de ouvintes, um público curioso, atiçado pelas palavras dedicadas pelo velhaco. Todos o ouviam fascinados ininterruptamente sem quaisquer contrariedade, como ternos discípulos.
De repente, a rua toda tornou-se um pandemônio, ouvia-se gritos, gemidos, tiros, vozes que suplicavam. Às pressas todos se escondiam, era a tropa do governo. Em instantes a vila presenciou um massacre.
Ao acabar a confusão, entrei na casa do velhaco.
Encontrei-o estirado sobre a cama recoberta por seu sangue, como se deleitasse em sua própria pureza, as mãos encontravam-se amarradas cruelmente, judiadas por impaciência antecipando injustamente seu julgamento. As cicatrizes no instante que as vi, sobressaiu-me, parecia-me mais evidentes do que dantes. No chão, recaia-se sobre o tapete o sangue que dobrava de direção até chegar à algo que trouxe-me certo incômodo e fez-me descer as lágrimas de incúria, penalidade que me surpreendiam aos passos lentos até seu encontro torturante. Agachei-me, fiquei trêmulo, inseguro de mim agarrei-o. Os Óculos! Encontravam-se desarmados, inquietos, exauridos sobre a pena e o papel manchados com a rudeza ao esparramar do sangue por todo o quarto abafado e mal iluminado naquela tarde mal posta por injúria. Óculos que agora restavam os pedaços revirados que tentava encaixá-los na incredulidade de minha visão. Estavam quebrados, caídos sobre um ponto de interrogação. O papel, a pena e os Óculos transpareciam-me unidos com algum propósito, talvez em justificativa da interrogação. No papel redigido a mão resumia em tais palavras seu discurso interrompido:
“A dor é um manifesto de sentimentos que perfuram certos membros do corpo. A dor persistirá, porque a guerra continuará incrédula ignorando tudo e a todos, julgando nossa retificação. O consolo não é ter liberdade nem ter a carta de alforria, mas consentir-se sobre o respeito ao próximo. A barbare, por sua vez, é universal símbolo da democracia do medo, medo não de perder o posto nem a vitória, mas de ser governado, estar sujeitado, ser violado. As raízes que constroem a índole são metamorfoseadas pela dignidade, a compreensão. Os laços serão mantidos quando dispormo-nos em seu introito a riqueza de tê-los gratificantes, fundidos, divulgados com assiduidade. A morte é regular às atitudes que tornam as ações drásticas, desafiadoras e descarregadas de uma justificativa coesa. Muitas vidas foram caladas reciprocamente pelas armas de fogo e ainda não justificam o cessar, pois a (in)diferença é capaz de continuar uma guerra. Sei que tentarão contra a minha, mas as palavras deixadas em escrito esperando alguém que as recebesse como tal fortuna, ou dialogadas com a precisa verossimilhança são as sementes que eu lançava reconhecendo meus últimos dias.”
Ofegante pus o papel e os destroços que restavam do Óculos em um pano umedecido de sangue, guardei-o no bolso da calça e saí do quarto sem os sentidos do corpo, saltei a escadaria como se saltasse um abismo, penetrei a rua como penetrasse uma imensidão de canaviais revoltados contra minha presença, andava como se pisasse em espinhos. Logo a tarde acabava, o Sol se punha, uma fina chuva abria o chegar da noite fria, ríspida, impaciente, inquieta com a omissão. Ao olhar do sofá o fogo o poder da expressividade daquele velho, o seu semblante (Ah! Que semblante!) me vêm à memória com tal força como se me fosse saltar da cabeça e sumir pela janela mordendo os ombros de quem se metesse em seu caminho, envenenando-os com a plausível sinceridade, a angústia por ter errado, por ter sido eu, em ordem do barão, tê-lo matado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário