sábado, 10 de junho de 2017

A indumentária humana

 Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes

Convidem-me ao botequim que me arruinara outrora
Arranquem-me destas raízes que se tornaram profundas
E que estivera a se materializar em mim
Agora sou pedra dura, porém, ilibada – assim de difícil lapidação.

Sou as costas que foram limpas das asneiras que o tempo cuspiu
Sou a noite orvalhada pelo prazer de existir
Assim, sem rumo, entro no destino e deixo de viver, e, sinto-me existir
Ora, sem estar presente, escrevo ao tempo um bilhete e deixo-o na mesa
Peço-o que se espante e que, na corrente, depressa se esconda
Ora, o passado, volta errante e me esmurra o estômago
Exacerba-me que o devolva o tempo perdido
Não o encontro! O que faço? Repito a dose? Digo-o que não me lembra?
Tusso um presságio?
Engano o ladrão.

Em frente ao espelho, olho que as rugas crescem como uma águia atenta
Os cabelos murcham como a pétala de uma flor quando se adormece
A pele afinou-se nos degraus inquietos da velhice à espera da camada final
Apoio-me no corrimão, este já em luto e olho meus dedos se esboçarem desdenhosos
O lampião, embora cansado, rejuvenescera-me a imagem há muito
Sinto a luz penetrar-me e perder-se pelo corpo em um aconchego excitante, quase jovial
O regozijo seda-me, ainda que o sofisma seja imóvel e exaure-me depreciativamente.

Meus passos são lentos
Não sei se o alcanço a tempo
Mas sei que o tempo em mim não vive mais, é estrela acamada
Serei passado quando cursar a esquina que o destino irá apagar.

Mas, embora eu perca a força, perca o ânimo, perca meu cerne...

Apresento-lhes esta: a indumentária humana!

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