Autor:
Matheus Ernandes Monteiro de Moraes
Convidem-me ao botequim
que me arruinara outrora
Arranquem-me destas
raízes que se tornaram profundas
E que estivera a se
materializar em mim
Agora sou pedra dura,
porém, ilibada – assim de difícil lapidação.
Sou as costas que foram
limpas das asneiras que o tempo cuspiu
Sou a noite orvalhada
pelo prazer de existir
Assim, sem rumo, entro
no destino e deixo de viver, e, sinto-me existir
Ora, sem estar presente,
escrevo ao tempo um bilhete e deixo-o na mesa
Peço-o que se espante e que,
na corrente, depressa se esconda
Ora, o passado, volta
errante e me esmurra o estômago
Exacerba-me que o
devolva o tempo perdido
Não o encontro! O que
faço? Repito a dose? Digo-o que não me lembra?
Tusso um presságio?
Engano o ladrão.
Em frente ao espelho,
olho que as rugas crescem como uma águia atenta
Os cabelos murcham como
a pétala de uma flor quando se adormece
A pele afinou-se nos
degraus inquietos da velhice à espera da camada final
Apoio-me no corrimão,
este já em luto e olho meus dedos se esboçarem desdenhosos
O lampião, embora cansado,
rejuvenescera-me a imagem há muito
Sinto a luz penetrar-me
e perder-se pelo corpo em um aconchego excitante, quase jovial
O regozijo seda-me,
ainda que o sofisma seja imóvel e exaure-me depreciativamente.
Meus passos são lentos
Não sei se o alcanço a
tempo
Mas sei que o tempo em
mim não vive mais, é estrela acamada
Serei passado quando
cursar a esquina que o destino irá apagar.
Mas, embora eu perca a
força, perca o ânimo, perca meu cerne...
Apresento-lhes esta: a
indumentária humana!
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