Autor: Matheus Ernandes Monteiro de Moraes
No
Brasil, sabe-se que o analfabetismo é consequência tanto de processos e
legislações políticas quanto da abertura de espaços para a modernização ainda
no rompante do século XX. O dicionário Larousse Cultural (1992) define moderno
como sendo aquilo “que pertence ao tempo presente ou a uma época relativamente
recente; hodierno, atual”. O desejo de inovar, a preocupação do governo em
exibir uma imagem de sociedade saudável, vista, muitas vezes, pelo viés das
guerras de resistência que sucederam pelo período, cito as Revoltas da Vacina e
da Chibata, 1904 e 1910, respectivamente, ambas ocorridas no Rio de Janeiro;
contribuíram para a marginalização das pessoas de classe social desvalida, já
que estas foram desabitadas dos grandes centros afim de transformar tais
intenções em projetos modernistas.
O percurso do analfabetismo é
extenso, contudo, pode-se notar, em 1960, por exemplo, que esteve atrelado à
retomada do processo de migração sentido Amazônia, para extração do látex, com
massa popular composta basicamente por nordestinos a busca de melhores
condições de vida. Outrossim, como apontam pesquisas realizadas por Suzana e
Marilei (2007), também cabe a ele a responsabilidade da crise econômica
industrial nacional, ocorrida ainda no ano sessenta. Nesse ínterim, surgem os
Movimentos de Educação Popular, em que houve reunião entre intelectuais da
educação acerca do método freireano, cujo objetivo era minimizar o percalço, senão
erradicá-lo. Outro fator importante, a LDB de 1971, que voltou a atenção para a
educação básica, salvaguardando a formação do pupilo, assim, definindo desde
regras, habilidades e compromissos. Alertando que as eventuais questões
apresentadas ao cenário social do país exigiam novos olhares metodológicos,
humanistas, integracionistas, que formassem o cidadão ativo e consciente de
seus atos na sociedade.
A
rede de notícias UOL (2016), ao citar uma pesquisa realizada em Todos Pela
Educação (2016), reafirmou que são cerca de 2,8 milhões de brasileiros sem
acesso à educação. No que tange a perspectiva social da educação, tendo por
base o contexto histórico em que se desenvolveu a educação brasileira, nota-se
que os números ainda são alarmantes e que atingem principalmente o leito das
classes menos privilegiadas, o que muito se deve à desigual redistribuição da
riqueza no país.
Se, por meio da Constituição Federal
de 1988, o Estado brasileiro se comprometeu, juntamente com a família, em seu
art. 205, a oferecer o ensino a todos; parte daqui a iniciativa em desenvolver
estratégias que garantam a permanência e o acesso ao ensino, inclusive aos que
não o fizeram na idade certa. E cabe aos ente federados a fiscalização e o
incentivo ao ensino. Para isso, programas sociais como o Bolsa Família, se bem
aplicados, poderão ser ferramentas importantíssimas, quando olhamos para as
questões sociais que ocorrem em nosso país, como a fome, a miséria, crianças
que largam os estudos para trabalhar, devido o alto índice de pobreza existente
em algumas regiões. Não somente os programas sociais são de grande apreço, mas
também, que a sociedade passe a integrar essa população, por meio de ofertas de
emprego para a família. Na condição de aprendiz, dever-se-á respeitar aos
dispositivos da Lei 10.097, de 19 de dezembro do ano 2000.
Em
um contexto de crise política, como a atual vivenciada pelo país, muitos
paradigmas e acepções sociais tornam-se motivos de galhofa ou descontentamento
por parte dos telespectadores da engendrada trama. Contudo, importa destacar
que esse é o momento exato de revisar nossas ideologias e promover reformas na
central da sociedade: o governo, as políticas públicas, o pleno exercício das
leis, educação, saúde, moradia. E, sabe-se que a instituição escolar é a
porta-voz das inquietações sociais, por isso, faz-se necessário se utilizar da
educação, embasada em métodos científicos, como ferramenta para a construção de
uma nova mentalidade à respeito do cidadão – este, peça fundamental do processo
de anexação da identidade cultural e formação conscientizada para agir
ativamente na sociedade, provocando mudanças em prol do coletivo. Também, parte
dessa conscientização a solução de problemas enfrentados na educação.
Para
que se possa olhar para o passado histórico da educação, faz-se necessário
romper com as amarras da dicotomia escolas de antes eram mais formativas que as
de hoje, porque, é indubitável dizer que as falhas no ensino das escolas de
hoje se resultaram das contribuições, que antes eram tidas como pertinentes.
Portanto, o que se tem a propor é desconstruir esse cenário para que se possa
inová-lo. Entretanto, isso não é uma tarefa fácil, porque estaríamos mexendo
com a estrutura de toda uma sociedade, isto é, nas acepções psicoculturais –
sobretudo, as ideológicas, políticas e econômicas – que se solidificaram no
seio da mesma.
Para
isso, o professor deve ter uma formação universitária e continuada. Assim,
desenvolvendo planos de carreira, metodologias e conhecer os caminhos para uma
educação universal. Poderá compartilhar, no meio acadêmico, experiências em
sala de aula e resultados pedagógicos com outros versados nas relações humanas
ou receber auxílio de renomados autores que se acamparam nos estudos educacionais.
Concomitantemente, elaborando estratégias para tecer as indumentárias da
inclusão e da diversidade, isto é, construindo um pensamento mais humanizado e
tolerante.
Por
conseguinte, o analfabetismo é uma herança histórica, por isso, sempre esteve
presente na consolidação das estruturas sociais então vigentes, o que
influencia na qualidade de vida da população, no rendimento profissional. Assim,
deve-se buscar, por meio de políticas públicas, incentivar o letramento de
crianças e jovens, que não tiveram acesso à educação na idade própria. Para
tanto, vale ressaltar que a educação é social, portanto, não só ao governo ou
não só à escola cabe a responsabilidade do progresso educativo, à sociedade
também. Unidos, poderão desenhar uma nação próspera e esperar que os efeitos se
desabrochem. E uma nação sem pobreza e com índices sérios de educação de
qualidade, é uma nação economicamente organizada. Então, o primeiro passo a ser
dado, em uníssono, é romper com as amarras da dicotomia dominantes e dominados,
que ainda impregnam mentalidades avulsas. Outrossim, é pertinente anuir sobre a
importância da divisão da rotina escolar – trabalhos teórico e prático, o uso
tecnológico nos planejamentos pedagógicos, bem como, a seleção informativa e
adaptação dos variados textos que circulam na íntegra, intimamente ligados à
função social da educação. E volto a afirmar sobre o trabalho transdisciplinar
e sua influência para a adesão cultural do discípulo.
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